Rodovia financiada pela China alivia gargalos de infraestrutura da Colômbia

Projeto foi uma das primeiras parcerias público-privadas da América Latina financiadas por entidade chinesa

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Melhorias nas rodovias da Colômbia ganham ritmo após anos de atraso. Uma nova rodovia, Mar 2, vai melhorar as conexões entre as cidades costeiras e a rede na capital do departamento de Antioquia, Medellín. (Imagem: IMF Photo / Joaquin Sarmiento / Flickr CC BY-NC-ND 2.0)

"Sempre tivemos uma estrada de terra batida, mas se colocarem um pouco de asfalto, vamos ficar muito felizes", diz Teófilo Lemos, gerente do porto Pisisí, na costa do Pacífico colombiano. Ele está satisfeito com a construção da Mar 2, a mais nova rodovia do programa de infraestrutura de quarta geração do governo colombiano, cujo objetivo é melhorar a conectividade rodoviária do país.

A Colômbia tem uma vantagem sobre muitos de seus vizinhos sul-americanos por seu acesso tanto ao Oceano Pacífico quanto ao Mar do Caribe — uma posição que muitos consideram subutilizada e uma oportunidade perdida de comércio e desenvolvimento.

O transporte terrestre de mercadorias desde o centro do país ao portos, e vice-versa, há anos tem sido um verdadeiro pesadelo: constantes deslizamentos de terra, más condições de estradas e insegurança devido a conflitos armados trouxeram frequentes atrasos e dificuldades.

As rodovias 4G da Colômbia


A nação sul-americana tem tido dificuldades para atualizar sua rede rodoviária, mas esperanças foram renovadas com o avanço do programa Quarta Geração de Concessões Rodoviárias (4G) lançado em 2014. Até o momento, três rodovias foram entregues.

Os desvios que os caminhões de carga faziam devido à má qualidade das estradas custam em média 5,6 trilhões de pesos colombianos (US$ 1,49 bilhão) ao setor de transportes, de acordo com um relatório da Câmara Colombiana de Infraestrutura.

Com o objetivo de mitigar essas perdas e resolver seus gargalos de infraestrutura, o programa do governo Quarta Geração de Concessões Rodoviárias na Colômbia (4G) propôs um amplo pacote de obras em diferentes regiões. As concessões começaram a ser liberadas em 2014. Na época, a Colômbia figurava entre os países da Aliança do Pacífico menos competitivos em capacidade logística, de acordo com o Banco Mundial.

Como parte do programa 4G, o orçamento destinado às rodovias deve aumentar de 1% para 3% do PIB. Com isso, será possível construir mais de 8.000 km de estradas no país. Até o momento, três rodovias totalizando quase 500 km já foram entregues.

A próxima etapa será concluída até meados de 2022 e incluirá a rodovia Mar 2, de 254 km. Esse trecho passa pelo departamento de Antioquia, no noroeste do país, e promete trazer alívio para muitos, como Teófilo Lemos.

O financiamento do Mar 2 veio por meio de uma parceria público-privada (PPP) com bancos japoneses e chineses. Assinado em 2015, o acordo representou o primeiro de infraestrutura PPP na América Latina envolvendo um financiador chinês. A China Harbour Engineering Company (Chec) e cinco empreiteiras colombianas integram o consórcio Autopistas Urabá para a construção da estrada.

As PPPs com instituições financeiras chinesas se popularizaram no setor de infraestrutura na Colômbia e podem ser eficazes para futuros projetos propostos no programa.

À medida que a rodovia está perto de ser concluída, há esperanças de que ela traga boas mudanças a uma região — e um país — que há muito busca melhorar sua rede viária.

Marco importante

A Mar 2 integra o conjunto das rodovias Pacifico 1, 2 e 3, localizadas na região de cultivo de café de Antioquia. Elas conectam a área ao sudoeste do Pacífico e, especificamente, a Buenaventura, maior porto da Colômbia e responsável por 60% das mercadorias que entram e saem do país.

Ligadas a elas estão as rodovias Mar 1 e 2, que visam acelerar a travessia de Antioquia do sul para o norte, onde chegam à região de Urabá, no Mar do Caribe, local que abriga os portos Pisisí, Antioquia e Internacional de Darien. A obra já está 75% completa.

De acordo com Carlos Gaviria, vice-presidente da Agência Nacional de Infraestrutura, a estrada manterá o prazo de entrega até meados de 2022.

Para muitos, a estrada é importante e até mesmo simbólica — não apenas para Antioquia, mas para toda a Colômbia. Além de melhorar a conectividade, seu financiamento PPP pode ser um exemplo para outras iniciativas do país.

"Temos o prazer de apoiar a Chec em uma transação histórica que pode desbloquear futuros negócios para atender as necessidades de infraestrutura da região", afirmou Luis Maria Clouet, do escritório de advocacia internacional Clifford Chance, à LexLatin.

Essa PPP foi realizada graças a duas linhas de crédito que somam US$ 652 milhões. A primeira foi concedida pelo China Development Bank, que injetou US$ 418 milhões, e a japonesa Sumitomo Mitsui Banking Corporation, que forneceu os US$ 84 milhões restantes. A segunda, de US$ 150 milhões, é da Financiadora de Desenvolvimento da Colômbia.

Segundo estimativas do consórcio Autopistas Urabá, a Mar 2 gerará mais de 14 trilhões de pesos (US$ 3,7 bilhões) como resultado de transações durante a fase de construção, e o PIB anual do departamento de Antioquia crescerá de 4,5% para 6%.

Embora as obras da Mar 2 estejam dentro do prazo, e um segmento já esteja em operação, o projeto sofreu atrasos, por exemplo em 2020 por causa da pandemia de Covid-19.

Gaviria, da Agência Nacional de Infraestrutura, explicou ao Diálogo Chino que, para mitigar esse atraso, as equipes que supervisionam os segmentos receberam 96 dias adicionais.

Além disso, a rodovia passa por uma região montanhosa, com áreas de floresta e alta pluviosidade — condições que provocaram a paralisação das obras para se evitar o risco de deslizamentos de terra durante a estação chuvosa. Ainda, a onda de protestos que a nação viveu entre abril e junho de 2021 causou o fechamento de estradas, problemas na importação de suprimentos e atos como a queima de uma cabine de pedágio na estrada.

Rodovia há muito esperada

Projetos do tamanho de Mar 2 com frequência recebem críticas por seu planejamento e execução deficientes e pelos impactos socioambientais, como o deslocamento de comunidades locais.

Na Colômbia, casos notórios recentes incluem o colapso da ponte Chirajara na estrada Bogotá-Villavicencio; o atraso de anos, devido à corrupção, da estrada Ruta del Sol — projeto cuja concessão incluiu a brasileira Odebrecht, envolvida na Operação Lava Jato; e o atraso na entrega do túnel La Línea no oeste do país.

Porém, a Mar 2 parece seguir um caminho diferente, com amplo apoio, antecipação da conclusão da obra e pouca controvérsia. A construção também deu um impulso ao emprego local, de acordo com estimativas do Ministério dos Transportes, que informa que as obras já geraram mais de dez mil empregos desde 2018.

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A Mar 2 não só melhorará a infraestrutura rodoviária, o transporte e a logística na Colômbia, mas também pode fortalecer o turismo na região. Hernán Holguín, secretário de governo da cidade de Uramita, expressou sua satisfação com a estrada e suas perspectivas de desenvolvimento.

"Nosso município estará a duas horas de Medellín [capital de Antioquia], no meio do caminho entre a capital e Urabá. Estamos alinhando nosso próprio trabalho com o dessas grandes obras, construindo um calçadão para atrair o turismo e armazéns para os produtores de cacau e limão. Também queremos construir uma área para hotéis e restaurantes".

Holguín menciona ainda que a rota permitirá que caminhões de carga em direção a Urabá evitem passar pelo centro da cidade, como é o caso atualmente.

Entretanto, mais ao norte, no município vizinho de Dabeiba, conhecido como a "porta de entrada de Urabá", moradores estão preocupados que a rodovia Mar 2 os isole, em vez de conectá-los à região.

O prefeito da cidade, Leyton Urrego, disse ao Diálogo Chino que o projeto da estrada levou à construção de um muro de seis metros que impede os moradores de acessar um túnel próximo. "Agora é preciso andar mais de três quilômetros para contornar [o túnel] na ida e na volta, ou seja, um total de mais de seis quilômetros", relata Urrego.

Urrego propõe a construção de uma entrada para permitir o acesso à rota como antes. Ele pediu à China Harbour Engineering Company um estudo de viabilidade e espera ser ouvido.

O atual governo espera entregar pelo menos quatro das oito rodovias 4G em construção no departamento de Antioquia antes do final de seu mandato em 2022, incluindo a Mar 2.