Estrada que conectaria comunidades ameaça biodiversidade e arqueologia na Bolívia

Moradores apoiam construção de rodovia ligando Potosí e Cochabamba, enquanto especialistas alertam para riscos socioambientais nas áreas mais pobres do país

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Moradores da cidade de Potosí e Cochabamba se queixam da falta de interconectividade com demais regiões da Bolívia (Imagem: Tiago Fernandez / Alamy)

Potosí tem uma história conturbada. Localizada nas terras altas do sul da Bolívia, a mais de quatro mil metros de altitude, a cidade foi possivelmente uma das mais afluentes da era colonial espanhola. Dois séculos depois, apesar de abrigar relíquias arqueológicas, rica biodiversidade e depósitos minerais, tornou-se um dos cantos mais pobres do país.

Para muitos habitantes, parte dessa pobreza é devido à falta de interconectividade de Potosí com as demais regiões da Bolívia. Por isso, o governo federal propôs a construção de uma estrada que poderia tirar Potosí do isolamento e conectá-la ao departamento de Cochabamba, ao norte — e, portanto, a todo o país.

Enquanto algumas pessoas têm esperança de que o empreendimento traga melhorias em sua qualidade de vida, especialistas alertam para a necessidade de um planejamento cuidadoso, garantindo que o projeto não prejudique a riqueza intangível de Potosí.

Quinze anos de espera por estrada

As cidades de Potosí e Cochabamba, capitais dos departamentos de mesmo nome, estão separadas por mais de 520 quilômetros, uma viagem de mais de dez horas de estrada. Mas, em outubro passado, o governo de Potosí e a Sedeca, autoridade rodoviária do departamento, acordaram com o grupo China Railway Group Limited (Crec) a construção de uma rodovia para reduzir esse trajeto, segundo informações de um representante do governo de Potosí ao Diálogo Chino.

Com 259 quilômetros, a rodovia — chamada provisoriamente Estrada de Integração Tinku, em referência a uma dança tradicional nas comunidades do departamento andino —  ligaria Tinguipaya, em Potosí, a Achamoco, em Cochabamba. De acordo com documentos da proposta, 222 quilômetros da estrada estão do lado de Potosí e cruzam um território de mais de 30 comunidades indígenas.

259 km

É a extensão da rodovia proposta para conectar Potosí a demais regiões da Bolívia. Caso concretrizada, a rodovia cruzará um território de mais de 30 comunidades indígenas.

Além disso, a rota proposta atravessa paisagens e sistemas ecológicos diversos, desde vales, com altitude de 2.300 metros, até o altiplano — o planalto andino — a mais de 3.700 metros. É uma terra fértil, onde a maioria trabalha na agricultura, incluindo o cultivo de variedades de batata, frutas como maçã e tumbo (espécie de maracujá), além de legumes como cenouras. Também abriga uma rica fauna, incluindo morcegos e camelos.

Em nossa visita à região onde a estrada será construída, moradores da fronteira dos departamentos de Potosí e Cochabamba expressaram apoio à sua construção. Eles acreditam que o empreendimento trará oportunidades de expandir sua produção agrícola e melhorar a economia local.

O agricultor Basilio Paniagua, de Apillapampa, comunidade na fronteira de Cochabamba com Potosí, explica que produtores de tumbo também fazem sucos, bebidas alcoólicas e geleias, entre outros produtos. Mas como as estradas na área são limitadas, diz ele, e os agricultores da região não conseguem transportar seus produtos.

Segundo Hilarión Capusiri, morador de Potosí, o período chuvoso é o mais difícil, porque há deslizamentos de terra que danificam as estradas. "Às vezes temos que percorrer os trajetos ao longo dos rios, que são muito difíceis. Por isso cobramos uma estrada de ligação com Cochabamba. Sofremos há tanto tempo", afirmou Capusiri.

Ele e outros moradores da região têm ajudado a divulgar o projeto na comunidade, especialmente entre aqueles que estarão à beira do canteiro de obras. "Seus lotes de terra e suas casas podem ser afetados. Eles têm planejar isso com antecedência para não ter dificuldades. Estamos fazendo esse trabalho com eles porque a estrada é a coisa mais importante para eles viajarem", disse Capusiri.

Amalia Capusiri Casana, membro da Assembleia de Potosí, explicou ao Diálogo Chino que o projeto foi anunciado em 2005, mas somente em 2013 foi aprovada a Lei nº 046, que estabelece a construção da rodovia Potosí-Cochabamba como "uma prioridade e necessidade do departamento". Casana afirma que, desde então, não houve avanços.

Do outro lado da fronteira, a Assembleia do Departamento de Cochabamba trabalha de forma semelhante para criar uma lei que "dê prioridade" ao projeto, disse sua porta-voz, Ariel Herbas, ao Diálogo Chino.

Potosí também é rica em recursos minerais. A rodovia passaria perto do depósito de Mallku Khota, onde estima-se haver 230 milhões de onças de prata — como referência, nesta quarta-feira (27), uma onça de prata está cotada em R$ 98,88 no mercado internacional. Na região, há quantidades semelhantes de índio, ouro, cobre e gálio.

Juan Téllez, assessor estratégico do governo de Potosí, garante que a construção da estrada beneficiará a exploração mineral, facilitando sua comercialização nas cidades. "Essa construção articulará e dinamizará essa exploração", afirmou ao Diálogo Chino.

Valor arqueológico da região

A estrada passará ainda por uma região com um alto valor cultural, sem contar as zonas arqueológicas, ecológicas e de depósitos minerais — tudo isso poderia ser afetado por uma estrada sem planejamento adequado. Se bem administrada e protegida, no entanto, as riquezas da região também podem servir de atrativo.

"O norte de Potosí é uma das regiões com maior diversidade cultural, onde o simbolismo milenar, o artesanato e a tecelagem são preservados. É uma das regiões mais extraordinárias que temos. Ela oferece uma dimensão incrível para o turismo comunitário e para explorar e desenvolver a cultura e a arte", explicou Juan Téllez.

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Gabriel López, engenheiro ambiental que assessorou diversos projetos rodoviários em Cochabamba, também avalia os riscos ao rico patrimônio arqueológico da região. "A Bolívia tem uma riqueza de culturas pré-colombianas. Há vestígios enterrados [na área] que são valiosos. Eles não terão um grande valor econômico, mas o valor arqueológico e patrimonial para nosso país é muito alto", disse.

López enfatiza que esses aspectos devem ser levados em conta antes de se iniciar a construção da estrada. O especialista destaca que esse tipo de trabalho tem um impacto social de longo prazo, que pode afetar a dinâmica das áreas ao redor da estrada.

"Projetos rodoviários de grande escala têm forte impacto ambiental, não apenas pelos aspectos físicos e biológicos que afetam o solo, a vegetação e a fauna, mas também tem a questão social. Da mesma forma que a estrada os auxilia no acesso a rodovias nacionais, ela os afeta", afirmou López.

Rota proposta

Embora o projeto apresentado pelo Crec e aprovado pelo governo de Potosí já tenha uma proposta de rota, somente agora o estudo de impacto ambiental está sendo elaborado. López também questiona que o traçado da estrada foi definido sem determinar as circunstâncias físicas, biológicas, socioculturais e arqueológicas da área.

Téllez, conselheira do governo de Potosí, estima que o estudo ambiental será concluído nos próximos meses e que o projeto custe cerca de US$ 400 milhões. A expectativa é obter financiamento chinês. "Conversamos com o conglomerado chinês Crec, e o embaixador chinês [Huang Yazhong] expressou disposição e interesse de fazer o possível para garantir financiamento para a construção da estrada", disse Téllez.