Coronavírus altera agenda de reuniões ambientais

Expansão do vírus pode levar a adiamentos de novos acordos sobre meio ambiente

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O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e o naturalista Sir David Attenborough, no lançamento das negociações sobre mudanças climáticas da COP26, que estão em risco devido ao coronavírus (imagem: Andrew Parsons / No10 Downing Street)

Com uma agenda cheia de negociações internacionais sobre biodiversidade, mudanças climáticas e oceanos, 2020 seria um ano-chave para o planeta. Contudo, a rápida expansão do coronavírus (Covid-19) está alterando esses planos de maneira drástica.

O vírus, que já infectou mais de 400 mil pessoas em todo o mundo, está afetando especialmente a China e países europeus, onde estavam programados encontros internacionais com o objetivo de assinar novos compromissos ambientais — alguns deles já foram cancelados, adiados, ou estão sob debate.

A situação preocupa ativistas e especialistas, que alertam sobre a urgência de ações mais ambiciosas para proteger o planeta, cujo atraso causado pelo coronavírus pode causar sérias consequências.

“O coronavírus gera um nível de incerteza parecido aos que as mudanças climáticas e de biodiversidade provocam. Estamos entrando em território desconhecido”, afirma Tom Burke, cofundador do grupo ambientalista E3G.

Negociações climáticas

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), principal órgão da ONU sobre o tema, decidiu cancelar ou adiar todas suas reuniões de março e abril, tanto na sede em Bonn (Alemanha) como em outras partes do mundo.

É o caso, por exemplo, da Semana Climática da África, que estava programada para o 9 de março em Uganda. Patricia Espinosa, secretária-executiva da UNFCCC, afirmou em um comunicado que avaliará a evolução da propagação do vírus para decidir a respeito dos próximos eventos.

“Nossa tarefa se tornou mais difícil com o adiamento de várias reuniões por causa do coronavírus. Mas enquanto trabalhamos para contê-lo devemos usar todas as oportunidades que tivermos para construir a agenda de ação climática”, afirmou o Secretário Geral da ONU, António Guterres, em Nova York.

Em junho está prevista em Bonn a reunião de dezenas de delegados de todo o mundo para avançar nas discussões climáticas. Contudo, não se sabe se o evento de fato acontecerá. O ministro da saúde alemão sugeriu cancelar todos os eventos com mais de 1.000 pessoas.

“Para ter uma COP 26 bem-sucedida é preciso construir marcos que orientem a negociação para um bom resultado. Se todos os países estão preocupados com outros problemas, como o coronavírus, isso dificilmente vai acontecer”, afirma Enrique Maurtua Konstantinidis, assessor-sênior sobre clima da Fundação Ambiente y Recursos Naturales (FARN) da Argentina.

O maior ponto de interrogação paira sobre a 26a Conferência das Partes (COP) sobre mudanças climáticas, programada para novembro, na Escócia. A COP26 seria fundamental para avançar na agenda climática, considerando o fracasso da antecessora COP25 de 2019, em Madri.

A COP25 deveria avançar em pontos-chave para a implementação do Acordo de Paris, como a criação de um mercado internacional de carbono e a garantia de financiamento por parte de países desenvolvidos a países em desenvolvimento. No entanto, o evento fracassou e tudo foi adiado para este ano.

A essa expectativa para a COP26 deste ano se somará a apresentação de novos compromissos climáticos (conhecidos como NDC) mais ambiciosos por parte de todos os países assinantes do Acordo de Paris, o que torna a cúpula realmente importante para avançar na redução de emissões.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson afirmou que o coronavírus “certamente se tornará mais preocupante” no Reino Unido, enquanto Catherine Calderwood, diretora médica da Escócia, afirmou que entre 50 e 80% dos escoceses poderiam ser infectados com o coronavírus nos próximos meses.

“O coronavírus implica a redução de emissões no curto prazo pela diminuição da atividade econômica. Mas ao mesmo tempo leva os países a priorizar o crescimento econômico indiscriminado sobre a ação climática”, argumenta Isabel Cavelier, diretora na ONG Transforma.

Oceanos e biodiversidade

A expectativa para este ano também é chegar a um novo acordo mundial sobre a biodiversidade. Para isso, a cidade de Kunming, na China, sediará em outubro a 15a Conferência das Partes (COP) do Convênio sobre a Diversidade Biológica (CDB), onde se espera que o acordo seja assinado.

Embora a China ainda não tenha dado sinais sobre possíveis mudanças no encontro, uma reunião preparatória para o evento que deveria acontecer na capital da província de Yunnan, no sudoeste do país, em fevereiro último, foi transferida para a Itália devido à expansão do coronavírus. A mudança levou à participação de menos delegados, e por menos tempo.

a maior parte das negociações ocorre nos corredores, à margem das reuniões oficiais

“Algumas delegações não puderam comparecer ou tiveram que ir embora mais cedo. O CDB tem 196 estados-partes, dos quais apenas estiveram presentes cerca de 150”, conta Ana di Pangracio, diretora-executiva adjunta da FARN, que participou da reunião. “Alguns faltaram por razões políticas e outros pelo coronavírus.”

A propagação do coronavírus também levou ao adiamento de duas reuniões da Organização Marítima Internacional (OMI) que aconteceria em março em Nova York. O comitê de proteção ambiental da OMI deverá decidir sobre propostas para melhorar a eficiência energética dos barcos, responsáveis por 3% das emissões globais.

3%

das emissões globais provocadas pelo homem provêm de navios

O mesmo aconteceu com a conferência intergovernamental da ONU sobre biodiversidade marinha em áreas fora da jurisdição nacional, agendada para 23 de março em Nova York. O objetivo do encontro é chegar a um acordo mundial para proteger a vida marinha fora das fronteiras nacionais.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) também suspendeu todas as reuniões até 20 de março. O adiamento também poderá afetar o encontro anual da entidade, que deverá ocorrer em junho no Cazaquistão. Com uma agenda cheia, espera-se avançar na eliminação dos subsídios para a pesca.

Além disso, tampouco se sabe o que vai ocorrer com a cúpula da ONU para avançar na implementação do 14o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), centrado na vida submarina. A reunião está agendada para junho em Lisboa, Portugal.

Seria a segunda vez que esse encontro aconteceria. O objetivo deste ano seria levar os países a adotar compromissos voluntários para apoiar o ODS 14, que estabelece a regulação da exploração pesqueira e o fomento da conservação em zonas costeiras e marinhas.

Na América Latina já começou a cancelar eventos massivos que, embora não tratem especificamente de temas ambientais, são relevantes porque definem políticas de investimento. O mais emblemático deles é a assembleia anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que estava programada para este mês em Barranquilla (Colômbia) e que já foi adiada para setembro.

“O coronavírus é muito potente e pode causar o adiamento da maior parte das reuniões de agora até o fim do ano”, afirmou Tom Burke. “Substituir esses encontros com reuniões virtuais não seria suficiente, já que a maior parte das negociações ocorre nos corredores, à margem das reuniões oficiais”.