Indígenas: os mais vulneráveis ao avanço do coronavírus na América Latina

As populações indígenas estão entre os grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus

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Ingas Colombia

Há preocupação em países como Colômbia, Equador e Peru sobre os efeitos que a pandemia de covid-19 poderia ter em povos indígenas. Na imagem, os Inga do sul da Colômbia. Foto: Andrés Bermúdez Liévano

A pandemia do novo coronavírus fez população mundial de refém, levando vários países da América Latina a fechar suas fronteiras e a declarar estado de emergência para conter seu avanço. Mas planos para as populações indígenas ainda são vagos, mesmo que elas estejam entre os grupos mais vulneráveis ao vírus.

“A situação sanitária dos povos indígenas para doenças infectocontagiosas introduzidas já é grave devido à alta prevalência dessas patologias e ao serviço de saúde deficiente”, afirma a antropóloga peruana Beatriz Huertas, especializada em povos indígenas. “O coronavírus agravaria ainda mais essa situação.”

No Peru, o presidente Martín Vizcarra decretou, na semana passada, estado de emergência nacional por 15 dias. Enquanto isso, o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, ordenou uma quarentena em sete estados do país. O Equador também estabeleceu restrições para a circulação de pessoas e veículos, e os aeroportos estão proibindo o pouso e a decolagem de voos internacionais.

Nesse pacote de medidas, nenhum dos três governos mencionou planos para as populações indígenas. A Mongabay Latam conversou com especialistas e líderes desses grupos para obter um panorama claro dos riscos que pairam sobre essas comunidades, principalmente sobre os povos isolados e de recente contato.

Em risco permanente

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 50% dos indígenas acima de 35 anos sofrem de diabetes tipo 2. Além disso, os povos indígenas apresentam altos níveis de mortalidade materna e infantil, desnutrição, doenças cardiovasculares, HIV/AIDS e outras doenças infecciosas — como o paludismo e a tuberculose —, afirma o site do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas.

“Os povos indígenas têm uma saúde muito mais precária, mais probabilidade de incapacitação ou de ter sua qualidade de vida diminua e, em última instância, de morrer mais jovens que os demais grupos sociais”, explica o texto da ONU.

A situação dos povos indígenas é de extrema vulnerabilidade. Huertas menciona que nas comunidades indígenas é alta a prevalência de doenças como a hepatite B, tuberculose, malária ou dengue. “Como eles enfrentarão o COVID-19? Além disso, as altas taxas de anemia afetam o sistema imunológico dos indígenas e os deixam ainda mais expostos a doenças.”

Carol Zavaleta, doutora em geografia da saúde, afirma que os povos indígenas são uma população de alto risco. “Não temos dados sobre as zonas indígenas do Peru durante as pandemias anteriores. No caso do H1N1 [gripe A], os dados dos Estados Unidos, Austrália e Canadá apontam que as taxas de mortalidade para os indígenas foram de três a sete vezes mais alta se comparados com os não indígenas”, acrescenta a pesquisadora da Unidade de Cidadania Intercultural e Saúde Indígena da Universidade Peruana Cayetano Heredia.

Para Zavaleta, as taxas de desnutrição e de anemia dos povos indígenas são preocupantes, assim como o baixo acesso a bons serviços de saúde e a ausência de água potável. A pesquisadora também lembra o que aconteceu com o HIV: quando começou o contágio, não foi possível controlá-lo em povos como o awajún, no Peru.

Apesar de não haver dados nos países latino-americanos sobre infecções estrangeiras atuais, Zavaleta explica que há informação sobre surtos epidêmicos após a chegada de missões religiosas e de pessoas que foram para a Amazônia com o objetivo realizar atividades extrativas. “Em nenhuma dessas circunstâncias a mortalidade dos indígenas é menor ou igual do que a dos não indígenas. Essa também é uma doença estrangeira e, por isso, completamente nova para eles”, explica a pesquisadora da Fundação Wellcome Trust, na Inglaterra.

Restringir o acesso a territórios indígenas

Em comunicado emitido na sexta-feira, 13 de março, as Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA, na sigla em espanhol) lançaram um chamado de emergência aos governos dos países-membros para que estes tomem medidas sanitárias e elaborem planos de contingência de acordo com a situação específica de cada povo indígena.

Entre as medidas propostas pela organização indígena regional está um controle mais severo da entrada e saída de territórios indígenas, em especial das pessoas que não pertencem a essas comunidades, assim como a limitação do acesso dos indígenas a lugares turísticos ou onde há multidões. Além disso, as medidas da COICA sugerem planos específicos para possíveis surtos do coronavírus.

“Há 506 povos indígenas que estariam em risco iminente, além de 76 em isolamento, cujo sistema imunológico é muito fraco e qualquer gripe pode fazê-los desaparecer. Uma pandemia desta magnitude para as comunidades nativas significaria uma catástrofe de grandes proporções”, afirma o líder colombiano Robinson López, coordenador de mudanças climáticas e biodiversidade da COICA.
López sugere a suspensão imediata de atividades turísticas nos territórios indígenas com o objetivo evitar qualquer contágio. Ele também afirma que os líderes indígenas que estão fora de seus territórios não devem retornar a suas comunidades, já que eles podem ser portadores do vírus.
López acrescenta que as autoridades indígenas podem tomar decisões independentes de controle em seus territórios e restringir a entrada de estrangeiros.

Na Colômbia, o Ministério da Saúde e Proteção Social e o Ministério do Interior emitiram ontem uma circular detalhando ações específicas para a prevenção, contenção e mitigação do coronavírus entre os grupos étnicos.

Entre as recomendações está, por exemplo, que os grupos indígenas permaneçam dentro de seu território e evitem sair para reduzir a exposição ao risco de contágio. Também se propõe limitar a entrada de pessoas alheias às comunidades, como turistas, representantes de ONGs ou organizações internacionais; limitar o desenvolvimento de atividades com participação massiva, entre outras medidas de prevenção.

No Peru, o Ministério da Cultura, em conjunto com as Direções Regionais de Saúde de 14 regiões que abrigam populações indígenas, publicou estratégias de prevenção ao contágio do coronavírus, assegurando os canais de tradução em línguas indígenas ou originárias das medidas adotadas.
Héctor Requejo, prefeito de Condorcanqui, província na fronteira do Peru com o Equador, anunciou que a partir hoje que controlará as estradas de acesso ao território das comunidades awajún e wampis no Peru, assim como a entrada de estrangeiros a essas comunidades, além de proibir as reuniões públicas.

Deficiências nos serviços de saúde

A líder indígena Ruth Buendía, representante da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), afirma que a infraestrutura de saúde nas províncias é deficiente e que não há serviços básicos nas comunidades.

“Muitas pessoas morrem de gripe, então vai ser muito pior com esse vírus. Muitas vezes não há como ir a um centro de saúde”, reclama Buendía, acrescentando que a crise atual deveria ser uma oportunidade para implementar hospitais nessas regiões. A líder indígena também lembra, contudo, o que ocorreu no norte do Peru com a reconstrução de estruturas danificadas em 2017 pelo fenômeno meteorológico conhecido como Niño Costero — um processo que até agora não avançou o suficiente.

Andrés Tapia, líder de comunicação da Confederação de Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae), comenta que em seu país as federações indígenas deram autonomia a cada nacionalidade para tomar as ações necessárias dentro de seus respectivos territórios.

“A Nacionalidade Achuar do Equador (NAE) proibiu a entrada de turistas em seu território e solicitou que os lodges que abrigam visitantes estrangeiros não atendam ao público”, conta Tapia.
O líder indígena menciona também que uma das pessoas diagnosticadas com coronavírus era um turista que esteve na Reserva de Produção de Fauna Cuyabeno. “As outras organizações estão analisando ações a ser adotadas e, se houver possibilidade de contágio, tomarão medidas semelhantes”, conta Tapia, acrescentando que no Equador não há protocolos específicos em situações como esta para as comunidades indígenas.

O líder indígena Alex Villca, da Coordenadoria de Defesa de Territórios Indígena, Originário, Campesino e Áreas Protegidas (Contiocap), afirma que a Bolívia poderia se tornar o país mais vulnerável e mais desprotegido para esse tipo de vírus. “Os funcionários de saúde ainda não estão qualificados para prestar serviços caso o vírus se espalhe pelo país”, indica.

Villca acrescenta que até o momento não há nenhum caso positivo nas 36 nacionalidades indígenas em território boliviano. No entanto, o líder indígena afirma que as comunidades que prestam serviços turísticos a estrangeiros estão em risco, embora as restrições nos aeroportos e fronteiras possa levar a um “fluxo turístico nulo”.

O que também preocupa o líder da Contiocap são as consequências desta pandemia. “Haverá um enorme vazio na economia global, o que pode ser uma desculpa para depredar ainda mais a natureza, os territórios indígenas e as áreas naturais protegidas”, declara Villca, para quem os governos farão pouco ou nada para proteger os povos indígenas.

Perigo latente

Para o epidemiologista Eduardo Gotuzzo, diretor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Peruana Cayetano Heredia, o prognóstico não é bom para os povos indígenas, caso o vírus se propague em suas comunidades. “Se o vírus entra nas comunidades nativas haverá muitas morbidade e mortalidade. Temos que pensar nas populações de alto risco, como os povos indígenas”, comenta.

Contudo, Gotuzzo considera que a saúde nas Américas é “o primo pobre dos governos”, com poucos recursos, centros de saúde que não funcionam e falta de especialistas. “A crise de saúde é permanente”, explica.

Os povos indígenas em isolamento são também uma preocupação para os líderes indígenas e especialistas. A líder indígena peruana Ruth Buendía afirma que, em regiões como Madre de Dios e Ucayali, os povos em isolamento voluntário estão em perigo.

Em seu comunicado, a COICA convoca os governos nacionais a tomar medidas sanitárias para os povos indígenas localizados em regiões de difícil acesso e para povos indígenas em isolamento voluntário.

Beatriz Huertas concorda que os efeitos do vírus nas populações indígenas de recente contato seriam muito mais graves. Em situações anteriores, mortes massivas de indígenas em isolamento voluntário foram causadas por doenças como a gripe ou o sarampo, para as quais esses povos não tinham imunidade. Nesses casos, a mortalidade foi grande e chegou a arrasar populações inteiras.

Esta reportagem foi publicada originalmente pelo portal Mongabay Latam.