Grandes projetos de petróleo entram em colapso junto com preços

Ceticismo em relação a planos para impulsionar economias com petróleo cresce. Será a hora das renováveis?

Compartilhar

AMLO oil price Mexico

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, em uma coletiva de imprensa em julho de 2010, em que falou sobre seus planos para a estatal Pemex. Desde então, os preços do barril de petróleo entraram em queda livre. (Imagem: EFE/ Alamy)

Em 2019, os novos presidentes de México e Argentina anunciaram planos para impulsionar suas economias em dificuldades: lançar ambiciosos projetos de petróleo que aumentariam as receitas do Estado.

No México, o projeto girava em torno da Pemex e da controversa refinaria Dos Bocas. Na Argentina, Vaca Muerta, um dos maiores depósitos de petróleo e gás de xisto do mundo, era apontado como o salvador da economia do país

60%

a queda no preço do petróleo desde janeiro

Depois veio a pandemia de Covid-19. E, junto com ela, um grave crash no mercado de petróleo. Os preços do petróleo caíram 60% desde janeiro, para menos de US$ 30 por barril — os menores preços em 18 anos. Tudo começou com uma crise na demanda, com a desaceleração da economia chinesa. Mas a queda é principalmente consequência de uma guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita que provavelmente inundará o mercado internacional de petróleo, tornando o investimento no setor muito menos atraente.

O colapso do investimento afetará não apenas o México e a Argentina, mas também outros países produtores de petróleo na região da América Latina, como Venezuela, Brasil, Colômbia e Equador.

Edmar de Almeida, professor de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro que estuda o setor de energia, disse que as crises simultâneas de demanda e preço provavelmente afetarão o investimento em projetos de petróleo, já que as empresas tentam economizar.

“Isso significa uma redução do investimento em exploração e adiamentos de projetos. Não vejo o petróleo como um motor para impulsionar a economia agora”, ele disse.

Esperanças em colapso junto com preços do petróleo

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, estava tão ansioso para usar o petróleo para alavancar a economia que uma de suas primeiras medidas como presidente foi mudar o lema da petrolífera estatal do país, Petróleos Mexicanos, ou Pemex. Agora, se lê: “Pela recuperação da soberania” acima do logotipo de uma águia mexicana.

As perguntas sobre a capacidade da Pemex de impulsionar a economia do México já se acumulavam, conforme a companhia lutava para pagar dívidas de mais de 105 bilhões de dólares, segundo a Reuters. Algumas receitas foram salvas através de uma venda em grandes proporções de sua produção por meio de contratos futuros, que a protegeram da quebra.

O futuro da refinaria de Dos Bocas, de 8 bilhões de dólares, prometida por López Obrador, também parece incerto. Em janeiro, o embaixador chinês Zhu Qingqiao anunciou que dois bancos chineses investiriam 600 milhões de dólares no projeto, mas voltou atrás depois que o governo mexicano negou o acordo, na tentativa de manter o que chamava de soberania sobre o projeto.

A refinaria seria um investimento enorme para ser feito por uma empresa em dificuldades, principalmente sozinha. Mas, mesmo com a queda de preços, o governo mexicano ainda a apoia.

“Numa época em que os preços do petróleo estão tão baixos, tal como hoje, o mais conveniente e o melhor negócio é refiná-lo ", disse a ministra da Energia do México, Rocío Nahle, em uma entrevista recente com o canal El Financiero TV.

Enquanto isso, na Argentina, muitos precisam aceitar o fato de que os planos do governo para desenvolver ainda mais Vaca Muerta, na província sulista de Neuquén, na Patagônia, provavelmente terão que aguardar mais do que era esperado  — notícias esmagadoras para um governo que precisa de mais recursos para lidar com um processo de reestruturação de sua dívida.

“A Argentina colocava a maioria de suas esperanças futuras em Vaca Muerta e agora isso está sob discussão”, disse Jorge Lapeña, ex-secretário de energia.

Em sua atual condição, Vaca Muerta desempenha um papel importante no mercado nacional argentino, fornecendo 3% do gás do país e 19% de seu petróleo.No entanto, apenas 5% das reservas são exploradas. Para que seja rentável, o preço de um barril de petróleo Brent deve estar acima de 40 dólares, muito acima dos níveis atuais.

Manter o crescimento planejado de Vaca Muerta em produção significa desenvolver cerca de 300 poços de hidrocarbonetos não convencionais por ano, exigindo investimentos entre 5 bilhões e 7 bilhões de dólares anualmente, de acordo com um relatório da consultoria empresarial Abeceb.

“Vaca Muerta é agora como um paciente com febre, temos que acompanhar a evolução dos mercados internacionais. Se os preços permanecerem baixos, os investimentos serão adiados e a produção cairá ”, disse Gerardo Rabinovich, vice-presidente do Instituto Geral de Energia Mosconi.

Sem clientes

Os investimentos não são a única preocupação na América Latina, pois muitos países dependem da receita do petróleo para pagar as contas. A China é um dos principais clientes do petróleo produzido na região.

Almeida diz que o Brasil tem um forte mercado interno que poderia ajudar a empresa estatal de energia Petrobras a enfrentar a crise. Mas a empresa anunciou que estava cortando seus investimentos de 12 bilhões para 8,5 bilhões de dólares devido à crise e desacelerando a produção, especialmente em águas rasas. Almeida diz que os cortes não devem afetar os investimentos de longo prazo, como estes estão planejados para se estender por vários anos.

Você sabia...?


Exportações de petróleo colombiano para a China dobraram entre 2017 e 2018

Mas o cenário é especialmente severo na Colômbia, onde o petróleo representa quase 80% das exportações para a China. O país dobrou as vendas para a China entre 2017 e 2018. No entanto, em fevereiro, enquanto lutava para enfrentar a crise da Covid-19, a China puxou os freios e reduziu as compras de petróleo colombiano.

O presidente da Colômbia, Iván Duque, sabia que a dependência do país das exportações de petróleo se tornaria um problema. Em agosto, ele prometeu diversificar as exportações da Colômbia para a China durante uma visita de Estado a Pequim. Nada mudou até agora.

"Temos que nos preparar para um dólar caro, para uma menor receita com exportações e, mais adiante, para menos receita tributária por causa do petróleo", disse o ex-ministro Mauricio Cárdenas, acrescentando que o país precisava aumentar o consumo interno do petróleo que não venderia para outros países.

Um incentivo para renováveis?

Conforme os preços mais baixos do petróleo se tornam o novo normal, muitos se perguntam o que isso significa para o investimento em energia renovável. Alguns dizem que os preços mais baixos do petróleo significam que as energias renováveis ​​são menos competitivas, enquanto outros argumentam que a queda na verdade significa que os investidores ficarão menos interessados ​​em petróleo e se aventurarão em projetos alternativos de energia.

André Ferreira, diretor do Instituto Energia e Meio Ambiente (Iema), do Brasil, disse que é prematuro fazer previsões sobre os resultados da crise nas energias renováveis.

Mas, à medida que os níveis de poluição caem e as pessoas observam o céu ficar azul nas maiores cidades da América Latina, Ferreira vê uma janela de oportunidade para veículos elétricos, assim como para a priorização do transporte público.

"Não vejo como, a longo prazo, isso será um impulso para as energias renováveis", disse ele, antes de acrescentar: "Esta é uma janela de oportunidade para falar sobre mobilidade urbana".