Ônibus elétricos chineses começam a circular em toda a América Latina

Cidades da região apostam em ônibus elétricos chineses para ter rede de transportes mais limpa

Compartilhar

Chinese electric buses in Montevideo, Uruguay

Los autobuses eléctricos chinos llegan a Montevideo, Uruguay (imagem: Presidencia de la República Oriental del Uruguay)

Se 2019 foi um ano crítico para os ônibus elétricos na América Latina, 2020 é o ano em que eles estão se popularizando.

Os países latino-americanos estão buscando tornar o transporte público mais limpo nas cidades mais densamente povoadas e, para isso, conseguiram superar obstáculos que dificultavam a implantação generalizada da tecnologia – atualmente impulsionada pela China em todo o mundo –, como, por exemplo, a escassez de modelos de financiamento nacional, pontos de abastecimento e até pessoal qualificado.

Os fabricantes chineses vêm se destacando como os maiores fornecedores de ônibus elétricos para a região. Adalberto Maluf, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico e diretor de Marketing da montadora chinesa BYD, conta: “a BYD vendeu 1.045 ônibus no ano passado na América Latina. Isso mostra que o mercado está crescendo. Ainda não é do tamanho do mercado europeu ou mesmo do americano, mas já está muito próximo”.

A América Latina tem 1.229 ônibus elétricos em circulação espalhados por 10 países. As unidades se dividem em 563 ônibus comuns, 624 trólebus e 41 ônibus elétricos midi, segundo o projeto E-Bus Radar, liderado pelo Laboratório de Mobilidade Sustentável da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Chile: maior frota de ônibus elétricos fora da China

Com 410 ônibus em operação atualmente, Santiago abriga a maior frota de ônibus elétricos da América Latina e a maior de qualquer outra cidade fora da China. A gestora é a Transantiago, sistema de Ônibus de Trânsito Rápido (BRT) responsável pelo transporte de cerca de 60% da população da capital chilena. Os veículos foram fornecidos pela BYD (285) e por outros fabricantes chineses, como a Yutong (100) e a Ling Long (25).

Os primeiros 100 ônibus chegaram em dezembro de 2018 e foram comprados diretamente pelo governo federal como parte da sua estratégia de eletromobilidade. O país pretende substituir toda a sua frota de ônibus por ônibus elétricos até 2050. No entanto, têm surgido alguns problemas, segundo Franco Basso, professor da Universidade Católica de Valparaíso.

“Não houve um processo de licitação, o que teria reduzido o valor da compra. Para compensar as despesas mais altas, o governo precisou aumentar a tarifa do ônibus, o que foi parcialmente responsável pelos conflitos sociais no Chile”, contou ele.

Os 410 ônibus elétricos geram 25% a 70% menos barulho do que as unidades a diesel, além de economizarem 24,6 mil toneladas de emissões de CO2 por ano, de acordo com as estimativas do governo. Apesar de serem mais caros do que os ônibus movidos a diesel, eles permanecem competitivos durante todo o seu ciclo de vida, que dura em torno de 20 anos, uma vez que os custos operacionais (eletricidade em vez de combustível) são até 76% mais baixos. A manutenção, como consertos e trocas de pneu, também é 25% mais barata.

O setor de transportes é responsável por 28% das emissões no Chile, segundo o inventário de gases de efeito estufa do país. Até dois terços do total de emissões são gerados pelo transporte coletivo. Segundo um estudo da ONU, a transição para uma frota de táxi e ônibus inteiramente elétrica em Santiago evitaria 1.379 mortes prematuras causadas por doenças respiratórias até 2030.

Colômbia: três grandes cidades abraçam a eletricidade

Em setembro de 2019, a cidade de Cali adicionou 26 ônibus fabricados pela Sunwin Bus da China ao seu sistema de transportes MIO. Medellín seguiu o seu exemplo e, em novembro, incorporou 64 ônibus da BYD ao seu sistema Metroplus, uma compra 100% financiada pela prefeitura local. As duas cidades se tornaram as primeiras a ajudarem o Chile a progredir no compromisso que assumiu no Acordo de Paris: substituir 75% da sua frota de ônibus por veículos com emissão zero, em sete das suas principais cidades até 2040.

A capital Bogotá, que adiou a compra dos ônibus elétricos porque os fabricantes chineses ainda não tinham os veículos articulados e biarticulados que eram exigidos pela Transmilenio da cidade, finalmente entrou na onda no final de 2019.

379

ônibus elétricos comprados por Bogotá não circularão no sistema BRT Transmilenio, que move a maioria dos passageiros da capital

Bogotá escolheu 379 ônibus que não farão parte do sistema BRT – em vez disso, alimentarão o sistema. A licitação pública aconteceu em novembro de 2019 e os ônibus pertencem a três operadoras que trabalham com a BYD. Os veículos devem estar nas ruas em setembro. A BYD também enviou seus primeiros ônibus articulados para teste em Bogotá e na cidade de Pereira, região central da Colômbia. O objetivo é substituir alguns dos ônibus da Transmilenio. A BYD também lançou um protótipo biarticulado de 25 metros e planeja enviá-lo à Bogotá

O próximo passo de Bogotá é provavelmente trocar 2.200 dos seus ônibus. “Autorizando um operador público, a cidade poderá comprar os ônibus diretamente e não precisará passar por concessionárias, imitando o modelo que foi um sucesso em Medelim”, disse Darío Hidalgo, pesquisador de Transportes da Colômbia.

Embarcar na onda elétrica tem ainda outro atrativo na Colômbia: a energia do país é fornecida por uma matriz energética comparavelmente mais limpa, uma vez que 70% da sua eletricidade é gerada por hidrelétricas.

Montevidéu: primeiros passos

Em 30 de maio, o Uruguai deu seu primeiro grande passo em direção ao transporte público mais limpo ao entregar 30 ônibus elétricos na capital Montevidéu. Os ônibus foram comprados por empresas locais e subsidiados por um esquema do governo que conseguiu igualar os preços das variedades elétricas e a diesel.

Vinte ônibus foram comprados da BYD e outros 10 da Yutong. Cada um tem capacidade de rodar de 250 a 280 quilômetros com apenas uma carga. A meta é aumentar a frota para algo em torno de 120 a 150 ônibus em Montevidéu nos próximos anos, o que representaria 4% da frota da cidade.

O setor de transportes consome cerca de 70% de todo o petróleo importado pelo Uruguai. O presidente Luis Lacalle Pou enxerga a eletrificação dos ônibus como algo importante não só para o meio ambiente, mas também como uma forma de reduzir a dependência do país no petróleo importado.

O Uruguai também faz parte de um esquema do Programa de Desenvolvimento da ONU (UNDP) chamado MOVES, que promove a transição para uma mobilidade mais eficiente e sustentável.

“Estamos em processo de transição de um esquema em que o país gastava milhões de dólares importando combustível para os ônibus, para um em que temos ônibus elétricos que usam a energia produzida localmente e baseada em fontes renováveis”, disse Ariel Álvarez, diretor da MOVES, acrescentando que 98% da energia produzida pelo Uruguai no ano passado veio de fontes renováveis.

Argentina: um longo caminho pela frente

Os ônibus elétricos são mais raros na Argentina, mas algumas novidades recentes podem abrir caminho para uma implementação mais ampla. O ministro da Produção Matías Kulfas está conversando com outros ministérios e fabricantes locais de veículos para analisar a viabilidade da fabricação nacional de ônibus elétricos como alternativa à importação.

A capital Buenos Aires tem apenas oito ônibus elétricos que atualmente fazem parte de um esquema piloto em quatro linhas. O acordo foi financiado por quatro fabricantes chinesas que forneceram dois ônibus cada uma:  Zhong Tong, Ling Long, Higher Bus e Yutong. A prefeitura instalou os pontos de recarga.

Buenos Aires tem uma das maiores frotas de ônibus da região: 18 mil unidades circulam pela cidade todos os dias. A prefeitura também tem um plano de mobilidade limpa através do qual espera reduzir em 14% as emissões do setor de transportes até 2035.

Enquanto isso, 18 ônibus da BYD circulam na cidade de Mendoza, que fica aos pés dos Andes. Todos eles foram comprados pela prefeitura local por 400 mil dólares cada um. O plano inicial contemplava o dobro de unidades, mas as autoridades reduziram o número devido à crise econômica.

Mariano Jimena, presidente da Associação Argentina de Veículos Elétricos, disse que os ônibus elétricos ainda desempenham um papel limitado no país. Porém, ele destacou que, nos últimos anos, foram tomadas medidas legislativas para mudar este cenário. “A Argentina está a caminho de trocar a sua frota de ônibus por veículos elétricos. Isso ainda vai levar um tempo, mas o processo já começou”.

México: implantação dos trólebus

Na primeira semana de janeiro deste ano, 63 trólebus fabricados pela Yuting começaram a circular em uma das principais ruas da Cidade do México, a Eje Central. Isso faz parte do projeto “Trolebici”, o qual inclui ciclovias, serviço de locação de bicicletas públicas e os novos trólebus. O investimento total foi de cerca de 35 milhões de dólares.

“O nosso alvo é um transporte público mais limpo para reduzir a poluição do ar”, disse Claudia Sheimbaum, prefeita da Cidade do México, em uma coletiva de imprensa.

Os trólebus têm emissões zero, funcionam por meio de fiação aérea e também possuem bateria que permite o deslocamento sem fiação por até 70 quilômetros. Os novos modelos consomem menos eletricidade do que os modelos mais antigos, contam com detector de obstáculos e alarmes especiais que alertam os motoristas para a presença de ciclistas. A última vez que a Cidade do México renovou sua frota de trólebus foi há 22 anos, segundo Guillermo Calderón, diretor-geral do Serviço de Transporte Elétrico da cidade.

Ren Wenhui, gerente comercial da Yutong no México, disse que a Cidade do México é a primeira a usar os trólebus da empresa na América Latina, embora os seus ônibus elétricos e a gás já circulem nas ruas de Aguascalientes, cidade da região central do México.

A Cidade do México foi declarada a cidade mais poluída do mundo pela ONU em 1992 e, desde então, implementou uma série de medidas de mitigação. Como resultado, conseguiu reduzir as emissões de carbono em 7,7 milhões de toneladas entre 2008 e 2012.

No entanto, o setor de transportes ainda gera 45% das emissões da cidade e a qualidade do ar sofreu uma queda nos últimos anos. Rodrigo Diaz, subsecretário de Planejamento da Mobilidade Urbana, afirmou que, embora os avanços em direção a uma energia mais limpa ajudem muito, não existe um modelo financeiro viável para comprar ônibus elétricos em uma escala maior no momento.

Brasil: ainda atrás

Mais de 390 mil ônibus circulam em todo o Brasil, mas apenas 247 são elétricos. Apenas oito cidades brasileiras têm ônibus elétricos, e ainda assim em número muito pequeno. Mesmo as cidades que parecem mais entusiasmadas com a eletrificação, como São Paulo – onde uma lei recentemente estabeleceu o objetivo de alcançar zero emissões de poluentes no setor de transportes em 20 anos –, tem sido lenta em incorporar mais ônibus elétricos às suas frotas.

São Paulo conta com 200 trólebus elétricos há décadas, mas a promessa de trocar os ônibus movidos a diesel por unidades elétricas tem se concretizado de forma muito devagar. Até o momento, a cidade comprou apenas 15.

Adalberto Maluf, da BYD, admite que o país não tem demonstrado muita pressa para aumentar a sua frota verde de ônibus. Por outro lado, ele diz que o crescimento nas vendas de caminhões de lixo e de carros elétricos híbridos é motivo de celebração.

“Aos poucos alguns mercados de nicho estão se consolidando”, afirmou. “Levou quase dez anos para que vendêssemos 11 mil carros elétricos híbridos, de 2009 a 2018, mas em 2019 vendemos 12 mil. Isso mostra que o mercado está pronto”.

No entanto, a pandemia de Covid-19 desacelerou o crescimento. As fábricas foram forçadas a fechar e interromper a produção e, assim, foi-se a esperança que o Brasil tinha de vender 27 mil carros híbridos este ano. Apesar disso, Maluf ainda é otimista. Segundo ele, a BYD tem planos de vender centenas de ônibus para São Paulo, Campinas e até Salvador, cidade que ainda não tem ônibus elétricos. 

Guayaquil, um operador privado com ônibus elétricos

As principais cidades do Equador também implantaram frotas elétricas, embora de tipos diferentes. A maior cidade, Guayaquil, escolheu ônibus comuns, enquanto a capital Quito optou por 85 trólebus.

Na cidade portuária de Guayaquil, 20 ônibus da BYD começaram a circular em 2019 como parte de uma iniciativa liderada por um dos operadores de transporte privado da cidade. Saucinc, uma pequena empresa que opera uma rota, pediu ajuda para o governo federal para que conseguisse trocar a sua frota de ônibus a diesel. O primeiro grande desafio foi construir novos pontos de recarga,

Projetos piloto

Várias outras cidades também têm ônibus nas ruas em fase de teste. No Peru, as cidades de Lima e Arequipa têm um ônibus cada da BYD. No ano passado, a cidade de Assunção no Paraguai introduziu dois ônibus da Zhong Tong, e a Cidade do Panamá deu início a um plano piloto com dois veículos da BYD.