Um mapa das usinas termoelétricas da América Latina

Novo mapa interativo do Diálogo Chino mostra todas as usinas termoelétricas da América Latina, enquanto países preparam transição energética

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Carlos Maneul Cespedes thermoelectric plant Cuba

A usina termoelétrica Carlos Manuel de Cespedes, em Cienfuegos, Cuba (imagem: Alamy)

Uma das chaves para entender o que variados países estão fazendo para combater a crise climática é olhar de onde vem sua eletricidade.

Dependendo de sua origem, a energia que usamos pode ser mais limpa ou mais suja. Por exemplo, uma usina que queima carvão para produzir eletricidade libera mais gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera do que uma usina solar ou nuclear.

Embora os países da América Latina e do Caribe não estejam entre os maiores emissores desses gases, que causam as mudanças climáticas, a região é uma das mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, como secas ou enchentes, assim como os cortes planejados de energia.

Ambientalistas acreditam que estas são razões suficientes para que os países da região, seus governos e população avancem projetos para fazer uma transição energética que favoreça a eletricidade gerada por fontes renováveis. A água, o sol, o vento, a geotermia ou a biomassa devem ter prioridade sobre a energia derivada de combustíveis fósseis, como o petróleo, o gás natural e, acima de tudo, o carvão.

Costa Rica e Uruguai têm matrizes energéticas que, durante vários meses do ano, são 100% renováveis

Esta transição para fontes de energia mais limpas pode significar que uma série de projetos de infraestrutura concebidos para extrair, processar e transportar combustíveis fósseis precisarão ser cancelados ou convertidos no futuro, para que os países consigam cumprir as metas de redução de emissões e evitar os piores cenários climáticos. Estas instalações têm sido chamadas de "ativos encalhados" nos círculos de financiamento climático e planejamento energético, já que os governos e empresas precisarão começar a calcular o quanto é econômica e ambientalmente rentável mantê-los em operação a longo prazo.

Para entender o quanto os países da região dependem hoje de ativos que podem “encalhar” no futuro, o Diálogo Chino apresenta um mapa único que detalha todas as usinas termoelétricas da América Latina e do Caribe, onde informações sobre elas estão disponíveis, sua capacidade energética, status e seus financiadores. Nossa intenção é que os dados sirvam como ponto de referência para quem quer compreender como os países da região estão progredindo na transição energética.

A energia termoelétrica, que é gerada pelo calor produzido pela queima de combustíveis fósseis, continua sendo a mais difundida na América Latina e no Caribe, com quase 500 usinas em toda a região. Em pelo menos 14 países, as usinas térmicas foram a principal fonte de eletricidade em 2015, de acordo com dados do Sistema de Informação Elétrica da América Latina e Caribe (Sielac) administrado pela Organização Latino-Americana de Energia (Olade). Em quase todos os outros, foi a segunda fonte.

Em alguns casos, essas usinas termoelétricas são uma alternativa à outra grande fonte de energia da região: a água. A hidroeletricidade é a fonte dominante na matriz energética de sete países, inclusive o Brasil, e a segunda em pelo menos outros dez. A geração hidrelétrica é mais limpa — quando não consideramos outros impactos socioambientais, além dos conflitos com construtores em muitos países do continente. Mas a capacidade das usinas hidrelétricas para gerar energia depende dos níveis de água dos rios e barragens. Em tempos de estresse hídrico, que se tornaram mais frequentes em vários países devido às mudanças climáticas, a solução tem sido recorrer às usinas termoelétricas.

"À medida que avançamos com outras soluções, a região deve se perguntar como encontrar um equilíbrio entre a evolução para matrizes de energia mais limpas e a manutenção das usinas termoelétricas necessárias para garantir uma reserva de energia", diz Giovanni Pabón, pesquisador de carvão e ex-coordenador do Grupo de Mitigação das Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente da Colômbia.

"Alguns já estão encontrando. O Chile decidiu incluir a biomassa em vez do carvão em sua visão de longo prazo, para manter as usinas que já tem e explorar outras alternativas renováveis. Tanto Costa Rica como Uruguai têm matrizes que, vários meses do ano, são 100% renováveis".

Há também diferenças entre os vários combustíveis fósseis usados para gerar eletricidade. Muitas termoelétricas têm favorecido ou convertido para gás natural, que gera menos emissões do que o carvão, é abundante na região e é um "combustível de transição" que pode ajudar nesse processo.

274

usinas termoelétricas na América Latina funcionam com gás natural
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Em nosso mapeamento encontramos pelo menos 274 plantas que funcionam com gás natural como principal combustível, e 75 que ainda funcionam com carvão.

O custo desta forma de produção de energia é alto. As emissões de todas as usinas termoelétricas da América Latina ao longo de sua vida útil - algo que os observadores da indústria chamam de "emissões comprometidas" - totalizam 6,9 gigatoneladas de carbono, de acordo com um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) do ano passado. Outras usinas planejadas, aprovadas ou em construção adicionariam mais 6,7 gigatoneladas e emitiriam um total combinado de 13,6 gigatoneladas, colocando a região bem acima de seus compromissos de mitigação no âmbito do Acordo de Paris.

Nosso mapeamento mostra que pelo menos 100 das usinas térmicas ativas na região foram inauguradas na última década — incluindo 10 movidas a carvão.

O número mostra que, embora a maioria dos países tenha assumido compromissos sobre como reduzir as emissões no setor elétrico, na prática eles ainda estão apostando na energia térmica em detrimento de outras opções como solar, eólica ou hídrica, que passou de representar 58% da geração regional de eletricidade em 2009 para 50% em 2016.

Nosso mapa mostra muitas das centrais elétricas que os países da América Latina e do Caribe – ricos em depósitos de combustíveis fósseis, mas altamente vulneráveis aos efeitos da mudança climática – terão de considerar em que ponto reduzir suas perdas e favorecer alternativas mais verdes.

Fontes

Construímos este banco de dados cruzando informações de fontes estatais, empresas operacionais, associações industriais e comunicados à imprensa. Alguns dos registros mais completos incluem: Secretaría de Energía y Compañía Administradora del Mercado Mayorista Eléctrico Sociedad Anónima (Cammesa) na Argentina, Ministerio de Energías na Bolívia, Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no Brasil, Sistema de Información Eléctrico Colombiano (Siel) e Asociación Nacional de Empresas Generadoras (Andeg) na Colômbia, Ministerio de Energía e Coordinador Eléctrico Nacional no Chile, Corporación Eléctrica del Ecuador (Celec) e Ministério de Energia no Equador, Comissão Reguladora de Energia, Comissão Federal de Eletricidade e Secretaria de Energia no México, Administración Nacional de Electricidad (Ande) no Paraguai, Ministério de Energia e Minas no Peru, Dirección General de Energía y Administrador del Mercado Eléctrico (Adme) no Uruguai, Corporación Eléctrica Nacional (Corpoelec) e Transparency International na Venezuela, Empresa Nacional de Energía Eléctrica em Honduras, Ministerio de Energía y Minas na Guatemala, Ministerio de Energía y Minas no Panamá, Instituto Costarricense de Electricidad, Superintendencia General de Electricidad y Telecomunicaciones em El Salvador

 

Reportagem de Emilio Godoy, Suchit Chávez, Tatiana Pardo Ibarra, Jeanfreddy Gutiérrez, Leonardo Coelho, Karina Godoy, Damián Profeta e Andrés Bermúdez Liévano, com o apoio de Rob Soutar, Fermín Koop, Alejandra Cuéllar e Manuela Andreoni. Mapa desenhado por Julia Janicki.