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Lições do Furacão Otis: ‘Desastres são socialmente construídos’

Após a passagem devastadora do furacão Otis no sul do México, a divulgadora científica Marjory González alerta sobre a necessidade de se preparar para os próximos desastres
<p>Pessoas caminham pela área turística de Acapulco, México, depois que o furacão Otis devastou a cidade em 25 de outubro (Imagem: Luis Gutierrez / Alamy)</p>

Pessoas caminham pela área turística de Acapulco, México, depois que o furacão Otis devastou a cidade em 25 de outubro (Imagem: Luis Gutierrez / Alamy)

Em 25 de outubro, o furacão Otis atingiu com força o estado mexicano de Guerrero, na costa do Pacífico, deixando pelo menos 45 pessoas mortas e mais de 20 desaparecidas. Pelo menos 200 mil residências foram danificadas. Antes de tocar o solo, o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos descreveu o fenômeno de categoria cinco como “um cenário de pesadelo”.

Quase um mês depois, Acapulco, a cidade mais atingida, continua sofrendo com os impactos da tempestade tropical. O transporte público ainda não foi restabelecido, e os preços nos mercados dispararam. Em toda a cidade, as filas dos caixas eletrônicos se estendem por quarteirões, e os moradores enfrentam uma escassez de produtos agravada pelas dificuldades no transporte terrestre — fatores que afetam desproporcionalmente a população de baixa renda.

Acapulco tem recebido apoio de todo o México, incluindo grandes cargas de alimentos e outros produtos para lidar com as consequências do desastre. Mas a reconstrução exigirá meses de trabalho — ou até anos, considerando a magnitude da destruição.

Para entender mais sobre os impactos do furacão Otis, o Diálogo Chino conversou com Marjory González, porta-voz da Rede Mexicana de Cientistas Climáticos. Composto por 80 especialistas em clima, meteorologia, riscos de desastres, proteção civil e resiliência, o grupo se dedica a encontrar soluções para a adaptação, mitigação e enfrentamento das mudanças climáticas no México.

González destaca que a desigualdade econômica agrava os estragos do furacão e que é necessária mais preparação e uma mudança de mentalidade diante desses desastres — cuja frequência e escala estão aumentando na América Latina. Essa transformação, segundo ela, deve ocorrer com urgência, e as mudanças em curso na região podem servir de exemplo para o resto do mundo, que também enfrenta eventos climáticos cada vez mais extremos.

Acapulco destruída após a passagem do furacão Otis
Apesar dos alertas sobre a chegada do furacão, a população em Acapulco não estava preparada para enfrentar os danos causados pela tempestade tropical (Imagem: Luis Gutierrez / Alamy)

Diálogo Chino: Como podemos entender os impactos do furacão Otis desde uma perspectiva científica?

Marjory González: Os furacões são um fenômeno natural, e é muito importante [para o funcionamento da Terra] que eles se repitam, mas estão sendo exacerbados pelo aquecimento global. Em apenas 12 horas, essa tempestade tropical virou um furacão de categoria cinco, o nível mais alto possível. Essa enorme aceleração [da velocidade dos ventos] é um fenômeno muito raro — até mesmo se comparada a outros fenômenos raros.

Por que essa aceleração ocorreu? Isso tem relação com os recordes de temperaturas oceânicas batidos desde março. As marcas foram quebradas sucessivamente, um mês atrás do outro, e todo esse calor serve de combustível para os furacões. Também estamos enfrentando o início do fenômeno El Niño, que está associado a um aumento de furacões no Pacífico em comparação com o Atlântico. 

Os furacões de categoria quatro e cinco são os mais violentos e estão começando a aumentar.

Acapulco estava preparada para o furacão?

Havia muitos turistas em Acapulco quando o furacão chegou. Vários deles contam que, quando perguntavam aos funcionários dos hotéis o que deveriam fazer diante da iminência do ciclone, a resposta era de que nada iria acontecer, pois a cidade estava acostumada com a chuva. As pessoas em Acapulco não entendiam a gravidade do problema e, mesmo que entendessem, não tinham onde se refugiar, porque não há áreas seguras. Mas a cidade já havia vivido algo semelhante com o furacão Paulina em 1997, quando 200 pessoas morreram — e houve outras tempestades bem violentas depois disso.

As pessoas em Acapulco não entendiam a gravidade do problema e, mesmo que entendessem, não tinham onde se refugiar, porque não há áreas seguras
Marjory González, porta-voz da Rede Mexicana de Cientistas Climáticos

Na era pós-Paulina, foram tomadas algumas medidas para alertar a população. Até foram colocadas sirenes em Acapulco, mas a cidade não foi preparada adequadamente para esse risco. Já em Cancún, na região da Riviera Maya, a população e o setor hoteleiro foram mais bem treinados para fenômenos semelhantes, e há hotéis com janelas anti-furacão. Em Acapulco, as janelas de vidro ficaram completamente destruídas.

A Rede Mexicana de Cientistas Climáticos fala sobre os impactos que os grupos de baixa renda sofrem com os desastres naturais. O que aconteceu nesse caso?

Acapulco é o porto mais importante do Pacífico mexicano e praticamente vive do turismo. A cidade era muito famosa nos anos 1950, e pessoas como Michael Jackson, Elizabeth Taylor, Elvis Presley e Jim Morrison passavam suas férias por lá. Ao mesmo tempo, é uma cidade tremendamente desigual: a zona hoteleira tem áreas com vastos recursos, mas o resto da cidade é, na verdade, pobre ou de classe média, de modo que a desigualdade é enorme.

Essas desigualdades tornam a reconstrução muito mais difícil. Na zona hoteleira, por exemplo, há transporte público; mas, na periferia, [a rede] é muito ruim. Além disso, se você vive em uma moradia precária, tem uma renda muito baixa e seu sustento depende da venda de tacos no comércio ambulante, por exemplo, a situação se complica, porque você só tem renda se sair de casa para trabalhar. Para essas pessoas sem acesso adequado à saúde, água potável, tratamento de esgoto, ruas pavimentadas ou transporte, a recuperação depois de um fenômeno climático como esse é muito difícil.

Os fenômenos são naturais, mas os desastres são socialmente construídos. Eles são o resultado socioeconômico da maneira na qual habitamos o espaço físico — e não se resumem às construções físicas, mas incluem também as diferenças sociais, [como o] acesso a serviços e direitos.

Comunidades de baixa renda próximas a Acapulco lavam roupas no rio
Comunidades de baixa renda próximas a Acapulco vivem em moradias precárias e com escasso acesso à saúde, água potável, tratamento de esgoto, ruas pavimentadas ou transporte. Fenômenos climáticos extremos podem aumentar a desigualdade nessas áreas. (Imagem: Luis E. Salgado / Alamy)

O furacão disparou um alarme no México. Olhando para o futuro, o que precisa mudar?

Já existe certo grau de preparação, mas as medidas precisam ser aplicadas. Em Acapulco, há um mapa das zonas de risco, mas o território não está organizado com base nele. Os interesses privados pesam mais do que os riscos e da proteção civil. Isso é algo que precisa mudar radicalmente — e pode ser feito. No caso da Cidade do México, por ser uma área de alta sismicidade, as normas de construção foram modificadas em 1985 e atualizadas várias vezes desde então. Atualmente, temos uma das melhores [legislações] de construção civil do mundo.

Também precisamos combater a corrupção: as construções em Acapulco não podem seguir da mesma forma. Em alguns casos, será necessário pensar se é realmente uma boa ideia construir um hotel em determinadas áreas ou se a população que vive nas encostas de morros deve ser realocada para moradias populares, com acesso a serviços básicos. Não se trata de remover as pessoas e deixá-las sem teto, trata-se de colocá-las em um local decente, com serviços e moradia decente. Temos que considerar que, devido à suscetibilidade a terremotos e furacões, certas áreas não podem ser habitadas.

O que mais precisa ocorrer para nos prepararmos para esses eventos?

Diante das mudanças climáticas, temos de entender que os furacões de categoria mais elevada continuarão a aumentar. Por isso, os sistemas de monitoramento devem ser fortalecidos. O México deveria ter aviões “caçadores de furacões”, porque os atuais modelos [de observação] não vão funcionar. A gravidade do furacão Otis foi detectada quando os aviões dos EUA passaram por cima dele. Embora tenhamos boas fontes de dados e uma excelente capacidade científica, precisamos de mais tecnologia e dados para a região do Pacífico.

Devemos nos planejar para os próximos 30, 40 anos e estar preparados caso um furacão apareça nas próximas 24 horas — a população deve saber como reagir e como se proteger
Marjory González, outreach coordinator for the Mexican Network of Climate Scientists

Também devemos fortalecer a infraestrutura urbana e torná-la menos desigual. Devemos combater a pobreza para que a população seja mais resiliente. Devemos pensar em como a cidade inteira deve ser reconstruída e, no geral, como as cidades do Pacífico devem ser construídas até nos mínimos detalhes: como será a resposta em cada bairro para que as pessoas saibam se precisam procurar abrigo; quais são as rotas de escape e assim por diante. Devemos nos planejar para os próximos 30, 40 anos e estar preparados caso um furacão apareça nas próximas 24 horas — a população deve saber como reagir e como se proteger.