Transição para ônibus elétricos na América Latina é irreversível

Novos compromissos de fabricantes e investidores garantidos pela parceria ZEBRA demonstram a necessidade - e a vontade - de comprar frotas com emissão zero

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ônibus elétricos

A nova frota de ônibus elétricos, fabricados pela BYD, chega ao Chile (imagem: Alamy)

Se você andar pelas ruas de Santiago, capital do Chile, notará que está em curso uma rápida transição para o transporte de emissão zero. Em menos de dois anos, 776 ônibus elétricos a bateria foram comprados. No entanto, isso é apenas o começo. Hoje, cerca de 2 mil ônibus elétricos já estão operando nas ruas da América Latina.

Apesar deste rápido crescimento, os ônibus elétricos ainda representam menos de 1% de todos os ônibus nas cidades latino-americanas. Aquisições de maior escala são limitadas pela dificuldade de acesso a novos modelos de ônibus com emissão zero e a ferramentas de financiamento de seu maior custo inicial.

Para lidar com essas barreiras, a parceria ZEBRA – uma colaboração entre o C40 Cidades e o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT, na sigla em inglês) – garantiu novos compromissos com mais de 15 investidores e fabricantes para unir seus esforços e acelerar a introdução de ônibus com emissão zero nas cidades latino-americanas. A parceria está trabalhando para garantir até 1 bilhão de dólares, o suficiente para que 3 mil novos ônibus elétricos ganhem as ruas da região.

Esses compromissos ajudarão a atender à demanda das autoridades de transporte público e dos operadores privados em algumas das maiores cidades da América Latina. As autoridades locais determinadas a ter uma frota totalmente composta por ônibus de emissão zero estão na vanguarda desta mudança regional.

2035

o ano que Santiago almeja já ter em uma frota de ônibus totalmente zero emissão

Santiago está liderando o caminho, com a maior frota de ônibus de emissão zero fora da China e com a ambição de ter em suas ruas uma frota totalmente zero emissão até 2035. A capital chilena recentemente recebeu ofertas para a primeira de muitas licitações, que levarão à adoção de até 1.670 ônibus elétricos a bateria.

Licitações similares estão a caminho em Bogotá, na Colômbia, onde 483 ônibus elétricos a bateria comprados recentemente estão sendo preparados para começar a operar. No Brasil, a emenda à Lei do Clima da cidade de São Paulo exige uma transição gradual para uma frota totalmente livre de emissões fósseis até 2038. São Paulo espera implantar mais de 3 mil ônibus elétricos a bateria nos próximos dois anos para cumprir sua meta. Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, e a Cidade do México lançaram importantes iniciativas de ônibus com emissão zero e são signatárias da Declaração das Ruas Verdes e Saudáveis C40, em que se comprometeram a adquirir apenas ônibus com emissão zero a partir de 2025. O Rio de Janeiro, que também assinou esta declaração, transformou o compromisso em um decreto oficial.

A pandemia criou um novo senso de urgência, desafios e oportunidades para a transição de energia no transporte público, mas os benefícios dessa transição permanecem os mesmos. A substituição de ônibus a diesel por ônibus elétricos leva a um ar mais limpo e a uma redução das emissões de gases de efeito estufa, especialmente se a frota for abastecida por uma matriz energética de baixo teor de carbono, o que muitas vezes é o caso na América Latina.

Um ar mais limpo, por sua vez, tem benefícios tangíveis para a saúde pública e a economia. Isto tem sido enfatizado pelos maiores efeitos da Covid-19 sobre as populações que vivem em cidades com baixa qualidade do ar, para as quais o transporte tende a ser um dos principais culpados, especialmente em grandes cidades como a Cidade do México e São Paulo.

Os ônibus elétricos também são mais eficientes em termos energéticos e, nas aplicações corretas, podem ter um custo total de propriedade muito menor, oferecendo uma economia financeira significativa para os seus proprietários e para aqueles que os operam, como divulgado recentemente pela Metbus, uma operadora em Santiago.

A disponibilidade de modelos de ônibus com emissão zero tem sido uma barreira há muito tempo. A China, onde 98% de todas as vendas globais de ônibus elétricos ocorrem, está facilitando esta transição por meio de desenvolvimento tecnológico, aumento de escala e subsequente redução de custos de tecnologias-chave, tais como baterias e motores elétricos.

Por um lado, os antigos fabricantes de ônibus com sede na Europa, como Daimler, MAN e Volvo, dominam o mercado latino-americano de ônibus com tecnologia diesel e veem os ônibus elétricos como um mercado distante no futuro. Por outro lado, os fabricantes chineses com menor presença de mercado, como BYD, Yutong e Foton, são a maior fonte de novos produtos de ônibus com emissão zero na região.

O maior custo inicial de ônibus elétricos (em comparação com os veículos a diesel) e o acesso ao financiamento para sua aquisição representam alguns dos maiores obstáculos à implantação de ônibus com emissão zero. Para enfrentar isso, as instituições públicas estão bem posicionadas para oferecer garantias financeiras aos novos atores que desejam liderar novos projetos.

Uma rápida retirada dos ônibus a diesel desempenhará um importante papel na forma como os países latino-americanos contribuem para que o aquecimento global não supere 1,5 grau até o final do século

O setor privado, antes mais avesso a riscos, está agora envolvido, como mostra o caso de Santiago, onde empresas de serviços públicos como a Enel X ajudaram a desenvolver um modelo de negócios inovador, que requer a separação da propriedade e da operação dos ônibus, e estão dispostas a replicar esses modelos em outros lugares.

Novos modelos de negócios, juntamente com investidores com capital e ampla capacidade de investimento e operadores privados de transporte, são fundamentais para ampliar a implementação de frotas de ônibus com emissão zero. Os compromissos de novos investidores para entrar no mercado serão cruciais neste momento de redução de receita para todos os sistemas de transporte público da região

As regulações e a ausência de requisitos técnicos adaptados aos veículos elétricos e aos novos modelos comerciais também estão dificultando o crescimento das frotas de ônibus com emissão zero na América Latina. Entretanto, os governos estão avançando nesse sentido.

A Lei da Colômbia de 1964, a única na região a estabelecer uma exigência nacional de compra de ônibus elétricos, e a recente decisão do México de dispensar tarifas de importação para todos os veículos elétricos até 2024 são passos na direção certa. Estas ações nacionais combinadas com as exigências locais das autoridades municipais são os compromissos políticos necessários para remodelar o mercado, afastando-se do diesel e favorecendo tecnologias de emissão zero.

Será necessária uma forte colaboração de todos os atores acima mencionados para atender à crescente demanda por ônibus de emissão zero na América Latina, que depende mais do que qualquer outra região de ônibus como o principal meio de transporte.

Uma rápida retirada dos ônibus a diesel desempenhará um importante papel na forma como os países latino-americanos contribuem para que o aquecimento global não supere 1,5 grau até o final do século, de acordo com o Acordo de Paris. O transporte limpo é um elemento crucial na descarbonização da economia latino-americana, um processo que pode levar à criação líquida de 15 milhões de empregos na região.

Os recentes compromissos da parceria ZEBRA demonstram que tanto a tecnologia quanto o capital estão disponíveis, mas políticas públicas mais fortes para deter progressivamente a aquisição de ônibus movidos a combustíveis fósseis continuam sendo necessárias.

As cidades latino-americanas estão prontas para transformar em realidade suas ambições por um ambiente mais limpo e saudável e oferecer um terreno fértil para novos investimentos. Os compromissos dos fabricantes e investidores de hoje mostram que a transição completa da frota para ônibus zero emissão na América Latina é claramente o caminho a ser seguido – e é também, a partir de hoje, irreversível.