América Latina continua longe de recuperação econômica verde

Apenas 2,2% de estímulos contra efeitos da pandemia na região são sustentáveis, mostra nova plataforma

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Estímulos para recuperação econômica na América Latina estão longe de ser ambientalmente sustentáveis, apenas 2,2% dos estímulos são verdes. N foto, máquinas de extração de petróleo

Extração de petróleo e gás de xisto em Vaca Muerta, na província patagônica de Neuquen, na Argentina (imagem: Alamy)

A América Latina está investindo muito pouco em uma recuperação verde da pandemia da Covid-19. Apenas 2,2% dos recursos destinados a estimular a região foram gastos em 2020 em projetos sustentáveis, de acordo com uma nova plataforma desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelas Nações Unidas.

No ano passado, 33 países da região destinaram US$ 318 bilhões a medidas fiscais e de estímulo para aliviar as consequências da pandemia, dos quais apenas US$ 46 bilhões (2,2% do total) podem ser categorizados como sustentáveis. O percentual é significativamente inferior à média global de 19%, pelos dados da plataforma.

“A região chegou a uma encruzilhada econômica. Ou os governos continuam a apoiar as antigas indústrias do passado, que estavam morrendo, ou investem em indústrias sustentáveis que podem garantir prosperidade. As novas oportunidades econômicas para a região são monumentais”, afirma Brian O'Callaghan, da Universidade de Oxford.

A análise de mais de 1.100 políticas mostra que 77% do orçamento de recuperação da pandemia na América Latina foi destinado a medidas de resgate de curto prazo para atender a necessidades urgentes e salvar vidas. Apenas 16,1% dos fundos foram utilizados para planos de recuperação de longo prazo.

2,2%

dos estímulos contra efeitos da pandemia na América Latina foram utilizados em projetos ambientalmente sustentáveis

 Em média, a região destinou US$ 490 per capita para a recuperação pandêmica, enquanto que nas economias em desenvolvimento o valor é de US$ 650. Apenas seis países gastaram mais de 0,1% de seu PIB em planos de recuperação, entre eles Chile (14,9%), Bolívia (10,5%) e Brasil (9,26%).

Guy Edwards, que pesquisa sobre a geopolítica da mudança climática e da América Latina, afirma que a região corre o risco de ficar para trás se não mudar sua direção. Para ele, é preciso rever os planos de gastos e a eliminação cuidadosa dos subsídios aos combustíveis fósseis para reduzir o impacto negativo sobre contas fiscais, emissões e poluição do ar.

“Trabalhar com os países para alinhar seus planos de recuperação às metas do Acordo de Paris será um primeiro passo vital”, defende o pesquisador independente. “Para isto acontecer, é preciso apoiar os países a priorizar investimentos e políticas que protejam a natureza e impulsionem a energia renovável e o transporte público limpo, o que pode criar empregos, reduzir a desigualdade e atacar as principais causas da migração”.

América Latina: uma economia em recessão

O PIB da América Latina caiu 7,7% no ano passado e não voltará aos níveis pré-pandêmicos até 2024, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) da ONU. Como em outras partes do mundo, os países foram instados a aproveitar a crise como uma oportunidade para iniciar uma recuperação verde.

No entanto, a realização deste objetivo tem se mostrado difícil para a América Latina. Além de responder às exigências da pandemia, os governos da região têm que lidar com altos níveis de dívida pública, de credores privados, agências multilaterais e, em alguns casos, da China.

“A resposta à pandemia está levando ao aumento da dívida, o que limita nossa capacidade de direcionar investimentos para a sustentabilidade ambiental. No entanto, colocar a ação climática como um motor de recuperação nunca foi tão importante”, comenta Andrea Meza, ministra do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica. 

Ou os governos continuam a apoiar as antigas indústrias do passado, que estavam morrendo, ou investem em indústrias sustentáveis que podem garantir prosperidade

A região foi responsável por quase um terço de todas as mortes globais da Covid-19, apesar de ser o lar de 8% da população mundial, segundo o Pnuma. A situação tem empurrado as políticas ambientais e climáticas para baixo na lista de prioridades governamentais na maioria dos países.

A nova plataforma, que por enquanto inclui apenas dados preliminares, revelou que grande parte dos fundos de recuperação da pandemia foi gasta em fontes de energia fóssil e infraestrutura de portos e aeroportos, o que deve levar a um aumento das emissões de carbono.

Argentina, México e Brasil concentraram seus gastos da Covid-19 em setores poluidores, fornecendo subsídios cada vez maiores às empresas de combustíveis fósseis e impulsionando novos projetos. Por outro lado, Chile, Jamaica e Colômbia se destacaram por seus esforços de recuperação verde no transporte elétrico e na energia renovável.

“Buscamos desenvolver medidas de curto prazo, mas com uma visão de longo prazo, promovendo a economia circular e novos negócios associados ao capital natural”, disse Daniel Gómez Gaviria, vice-diretor do Departamento de Planejamento Nacional da Colômbia. “As receitas do governo estão concentradas em combustíveis fósseis e minerais, por isso precisamos diversificar”. 

Uma recuperação verde

Impulsionar uma recuperação verde na América Latina não só faz sentido em termos ambientais, mas também em termos econômicos, graças aos muitos benefícios e empregos que poderiam ser gerados.

O Acordo de Paris, assinado em 2015, visa limitar o aquecimento global em até 2°C. Para isso, as emissões de gases de efeito estufa devem atingir o pico o mais rápido possível e depois cair para zero até 2050.

Isso é tecnicamente possível na América Latina, de acordo com um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), através da produção de eletricidade sem carbono, eletrificação da indústria e dos transportes e da eficiência energética.

A região economizaria até US$ 621 bilhões anualmente se os setores de energia e transporte alcançassem neutralidade de emissões até 2050, gerando 7,7 milhões de novos empregos, de acordo com um relatório do Pnuma.

A maioria das contribuições climáticas — as chamadas NDCs, na sigla em inglês — estão longe das metas do Acordo de Paris, incluindo as da América Latina, de acordo com uma análise da Cepal. Para reverter isso, são esperados novos e mais ambiciosos compromissos na preparação da cúpula climática da COP26, em novembro. 

A América Latina é responsável por 5% das emissões globais, principalmente do setor energético, da agricultura e da mudança do uso da terra. Mas a proporção está aumentando à medida que os países continuam a desenvolver combustíveis fósseis e não conseguem alavancar uma transição energética.

 “Ainda há uma oportunidade para os governos da região de buscar investimentos inteligentes e ambientalmente sustentáveis. Os benefícios desse tipo de gasto são realmente muito bons”, garante O'Callaghan. “Uma recuperação verde pode reduzir a desigualdade e levar a economias sustentáveis”.