Seca e conflitos por água trazem instabilidade ao México

País enfrenta crise de recursos hídricos devido à superexploração, poluição e mudanças climáticas

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Grupos Yaqui reunidos. México enfrenta grave crise hídrica. Um dos maiores líderes da guerra pela água, Tomás Rojo, foi encontrado morto recentemente.

Os oito grupos Yaqui e o governo mexicano assinaram, em agosto do ano passado, um acordo para garantir os direitos territoriais, incluindo a gestão da água, dessa povo indígena. Foto: Cortesia do Governo do México

Se há um povo que conhece bem o significado de injustiça hídrica, esse é o Yaqui, uma das 69 populações indígenas do México. Ainda mais agora, quando há semanas buscavam informações sobre o desaparecimento de um de seus líderes, Tomás Rojo, cuja voz simbolizava o que se convencionou chamar como “guerra pela água”.

A construção de um aqueduto e três barragens além da falta de água potável mostram como o grupo indígena Yaqui, formado por oito cidades no estado de Sonora, no norte do México, está encurralado. 

Rojo foi porta-voz do grupo e integrante do Movimento Cidadão pela Água. Ele desapareceu no dia 27 de maio, após sair cedo para uma caminhada em sua comunidade Vícam. Ele denunciava a construção de projetos de infraestrutura que secaram o território. Rojo foi encontrado morto recentemente, em meio a uma onda de violência contra líderes comunitários nas últimas semanas.

Obras de barragens e aqueduto

Entre 1940 e 1960, o governo mexicano construiu três barragens para irrigação e geração de eletricidade na região, ocupando 450 mil hectares e tomando metade da vazão do rio Yaqui, o mais importante da região — cerca de 250 milhões de metros cúbicos por ano.

Temos que prever as situações de disputa pela água, o efeito das mudanças climáticas, as projeções de déficit

Outra obra que desceu em seco à comunidade indígena foi a construção do Aqueduto da Independência, inaugurado em 2013, com capacidade instalada de 75 milhões de metros cúbicos. Ele transporta a água da barragem Plutarco Elías Calles à cidade de Hermosillo, a 1.890 quilômetros da Cidade do México, para alavancar o crescimento urbano e industrial.

Soma-se ainda o impacto da crise climática na região, onde a água disponível provém de chuvas sazonais. “Temos que prever as situações de disputa pela água, o efeito das mudanças climáticas, as projeções de déficit”, alertava Rojo em entrevista ao Periodistas por el Planeta antes de seu desaparecimento.

Crise hídrica no México

O conflito pela água em Sonora traz instabilidade ao México, um país com cerca de 129 milhões de habitantes altamente vulnerável aos efeitos da emergência climática, como secas, tempestades intensas, inundações, aumento das temperaturas das águas e do nível do mar. Acrescenta-se ainda um paradoxo: no sul e sudeste há excesso d’água, enquanto que no centro e norte, insuficiência.

Você sabia…?


O México possui 757 bacias hidrográficas

Pedro Moctezuma Barragán, coordenador geral do programa de pesquisa de Sierra Nevada pela Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), enumera os fenômenos que marcam a crise hídrica no México: o acúmulo de empresas agrícolas, mineradoras, imobiliárias, hoteleiras, engarrafadoras e cervejarias; a poluição, aumento da vulnerabilidade devido a secas, inundações e exploração excessiva de aquíferos.

“A crise da água faz parte do que vemos todos os dias”, afirma Barragán.

Outros desafios incluem a dificuldade de fornecimento d’água para centros urbanos e áreas rurais remotas; a deterioração da qualidade de rios, lagos e reservatórios; a gestão deficiente de águas residuais; a invisibilidade da importância das águas subterrâneas; a visão limitada da gestão de bacias hidrográficas; as falhas na regulação do acesso às águas superficiais e subterrâneas. Esses itens constam de um estudo que integra a Agenda Ambiental 2018, a qual um grupo de acadêmicos entregou ao presidente López Obrador.

A crise da água faz parte do que vemos todos os dias

O acúmulo desses contratempos resulta em conflitos. Esteban Castro, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet), que estuda a situação da água no México, lembra que o país latino-americano foi pioneiro na identificação de conflitos. Em 1981, ocorreram episódios em 93 cidades.

“Era sabido que iriam piorar. Tem coisas que não progrediram e que não foram resolvidas, algumas sérias. A Cidade do México, por exemplo, tira água de vários estados e isso gera conflitos. As tentativas de regular a extração fracassaram no país”, explica Castro.

Um país que seca

A desigualdade hídrica vem de sua geografia. O México tem uma área de 1,96 milhão de quilômetros quadrados. Destes, 67% são áridos e semiáridos, e apenas os 33% restantes são úmidos, segundo dados da Comissão Nacional de Águas (Conagua) estadual. 

Em 2018, as águas renováveis somaram 451.585 milhões de metros cúbicos — mais do que o suficiente para cobrir toda a superfície do país.

A água subterrânea é essencial para o México, que possui 757 bacias hidrográficas, uma vez que 39% dos usos nacionais dependem delas. A exceção é a hidroeletricidade. 

Este ano, o país tem sofrido uma forte seca que afetou gravemente a agricultura, a pecuária e a disponibilidade de água para os centros urbanos. Apesar do início do período chuvoso em maio, mais da metade do território apresenta condições de seca.

O México tem alto risco de estresse hídrico — o que o posiciona em segundo lugar no ranking das Américas, atrás apenas do Chile, segundo a plataforma Aqueduct, elaborada pela Aqueduct Alliance, que é formada por governos, empresas e fundações. 

O grau de pressão vem da divisão d’água usada entre as renováveis. É considerado "alto" se for maior que 40% e "sem estresse" quando for menor que 10%. Em contraste, o estresse aparece quando a demanda excede a quantidade disponível.

Risco hídrico desigual

O território mexicano parece uma paleta de cores. Do centro para o norte, eles podem sofrer estresse hídrico em 2040. Enquanto isso, o noroeste apresenta um risco médio-alto de esgotamento do aquífero. E praticamente todo o Golfo do México e o Mar do Caribe têm risco médio-alto de seca.

O país registra um uso intenso d’água, refletido em sua pegada hídrica (impacto das atividades humanas sobre o recurso) de 1.978 metros cúbicos por pessoa por ano, enquanto que a média global é de 1.385 m³/pessoa.

Para Patricia Ávila, pesquisadora do Centro de Pesquisa de Ecossistemas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), este é um problema multidimensional.

“A população mais pobre tem acessos diferenciados em quantidade e qualidade d’água. O fato de haver cobertura não garante que as pessoas tenham água. Para a população rural, pobres urbanos e áreas indígenas, o acesso é muito limitado. Nem nas cidades não há água encanada todos os dias”, explica.

A esses fenômenos, a especialista acrescenta a deterioração ambiental pela destruição de florestas e a construção de projetos de infraestrutura, bem como a poluição das águas, na medida em que “muitas fontes não são mais potáveis ​​para garantir condições adequadas [de sobrevivência] à população”.

A situação na Cidade do México, com mais de oito milhões de habitantes, é particularmente delicada. Ela está se encaminhando para o chamado Dia Zero, quando ficará sem recursos para atender às suas necessidades.

Megaprojetos de Obrador e a disputa pela água

A austeridade imposta pelo presidente López Obrador desde que assumiu o poder em 2018 retirou recursos do setor ambiental, incluindo da gestão hídrica, para financiar megaprojetos, como uma refinaria na costa do Golfo do México e o Trem Maia.

Ainda assim, em 2019, sua administração lançou um programa com o objetivo de buscar soluções para a gestão hídrica, em que colocará em prática alguns dos 47 projetos.

Enquanto isto, uma nova lei do setor tramita na Câmara dos Deputados. Até o momento, a instituição recebeu seis iniciativas, incluindo a primeira do país elaborada por organizações que defendem os direitos humanos à água, povos indígenas, agricultores e pesquisadores.

O México incluiu o direito humano à água em sua Constituição em 2012 e tinha um ano para aprovar uma nova Lei da Água, o que não ocorreu.

O negócio da escassez no México

O povo Yaqui aguarda por uma lei que garanta seu acesso à água.

“Se os riscos se concretizarem, praticamente deixará o sul de Sonora com um grande déficit hídrico e condenará a existência da tribo. Talvez uma geração tenha que passar pelas devastações mais amargas, já que a projeção para 2030 na bacia do Yaqui é de um déficit de 270 milhões de metros cúbicos. Se você acrescentar [as consequências das] extrações ilegais, será mais crítico. Fazem da água uma mercadoria muito cara em Sonora, a escassez é negócio de especuladores”, lamentava Rojo.

 A comunidade e o governo já assinaram um acordo para a construção de um aqueduto, estação de tratamento de água e esgoto.

Embora Ávila continue esperançoso de que as pesquisas em andamento ajudem a resolver o problema, ele tem reservas sobre a posição do governo.

“Não temos certeza se o governo tem interesse em fazer as mudanças necessárias ou se poderá fazê-las. Não vejo mudanças, não vejo uma visão diferente. Não internalizaram as mudanças climáticas nessas medidas”, afirma Ávila, que propõe uma conversão agrícola baseada na falta de líquido e diversificação de fontes, como a captação de águas pluviais.