Desmatamento no Chaco: uma bomba de carbono ignorada

O estoque armazenado nas florestas secas é muito maior do que se pensava originalmente, o que destaca a importância de se preservar o bioma

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Florestas secas como o Gran Chaco estão emitindo grandes quantidades de carbono

Desde 1985, cerca de 14 milhões de hectares do Gran Chaco foram desmatados. Apenas uma pequena parte do bioma está protegida atualmente (Imagem: Emiliano Lasalvia)

As campanhas internacionais contra o desmatamento têm historicamente se concentrado nas florestas tropicais. Biomas como os da Amazônia ou da Indonésia, onde grandes quantidades de commodities são produzidas para a cadeia agroindustrial global, têm recebido um foco constante dos cientistas e da mídia. 

Mas essa narrativa deixou de lado o que vem acontecendo há mais de três décadas nas florestas secas. Devido à profunda transformação que sofreram com a expansão da soja e da pecuária, o Gran Chaco — ou apenas Chaco — e o Cerrado brasileiro, entre outros ecossistemas vitais, vêm sendo destruídos, gerando quantidades de emissões de carbono comparáveis às dos ecossistemas tropicais.

O Chaco é um bioma sul-americano que abrange Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil. Por aqui, ele se estende pelos estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul e margeiam as áreas semi-alagadas do Pantanal.

Chaco subestimado

Não apenas o histórico de emissões do Gran Chaco foi subestimado, mas também houve um erro na avaliação da quantidade de carbono armazenada pela biomassa ainda de pé. 

Segundo estudos de pesquisadores argentinos e alemães com base em medições de campo e monitoramento via satélite, o carbono armazenado na ecorregião é 19 vezes maior do que se pensava anteriormente.

19

vezes mais carbono é armazenado no Gran Chaco do que se pensava anteriormente.

“Somente para o Gran Chaco seco, há cerca de 4,65 gigatons de carbono armazenados na vegetação. Esta é uma quantidade muito considerável de carbono. É lógico que nem tudo vai ser emitido. Mas mostramos, em termos das quantidades de emissões que vão para a atmosfera, que as do Gran Chaco são comparáveis às de lugares como a Amazônia ou Indonésia”, diz Tobias Kuemmerle, pesquisador do programa de Uso da Terra do Departamento de Geografia da Universidade Humboldt, em Berlim.

O Gran Chaco é o maior e mais biodiverso sistema florestal contínuo da América do Sul após a Amazônia. Sua destruição tem sido particularmente brutal na Argentina e no Paraguai, onde grandes áreas foram desmatadas para a pecuária e a soja. A Bolívia tem mais áreas protegidas, embora tenha sofrido com incêndios florestais. 

Isto, naturalmente, torna ainda mais urgente a conservação do sistema que tem apenas uma pequena área de proteção no parque argentino El Impenetrable.

Integração ou desintegração?

Entre 1985 e 2013, 14 milhões de hectares do Chaco foram desmatados com o objetivo de integrar os países latino-americanos ao ciclo global de commodities, seja para a produção de grãos inteiros ou processados em farinha ou óleo, seja para a carne e o couro.

“Os atores que intervêm são geralmente empresas com capacidade de investimento que  fazem um desmatamento total e passam, em dois ou três anos, por um caminho que vai da pecuária à agricultura e, às vezes, à agricultura diretamente”, diz Ignacio Gasparri, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina (Conicet) na Universidade Nacional de Tucumán.

Gran Chaco
A onça pintada é considerada uma espécie em extinção na Argentina, com projetos de conservação em andamento no Gran Chaco (imagem: Rewilding Argentina)

“Em muitos lugares do Chaco argentino, existe um sistema de arrendamento de terras. Não são as pessoas que detêm a terra que controlam os campos, mas alguém que a aluga. Não há motivação para fazer as coisas de forma correta. Estou aqui há 10 anos, espremo cada gota deste campo, e depois vou para outro lugar. Tudo isso contribui para uma dinâmica insustentável”, acrescenta Kuemmerle. 

Esta lógica de uso intensivo do capital resultou em um avanço muito rápido e sustentado da fronteira agrícola. Assim, em muito pouco tempo, uma enorme quantidade de emissões foi produzida de lugares que não deveriam liberar tanto carbono para a atmosfera.

Enorme estoque de carbono

Durante muitos anos, a comunidade científica internacional nem mesmo notou o que estava acontecendo nesta parte do mundo, considerando-a um local vazio, degradado e inacessível. Também não havia dinheiro para a pesquisa. Para tentar atrair a atenção, os pesquisadores começaram a usar o termo “extratropical” para se referir às florestas secas, alertando que algo acontecia aqui também.

O estudo de 2016 de pesquisadores argentinos e alemães, liderado por Matthias Baumann, também da Universidade Humboldt, preencheu uma lacuna na literatura científica.

“O carbono liberado pela agricultura nos últimos 30 anos é da mesma magnitude que a do Kalimantan no Sudeste Asiático, uma área [na Ilha Bornéu] fortemente afetada pelo desmatamento para a produção de óleo de palma. Todos falam sobre a Indonésia, mas ninguém fala sobre o Chaco”, diz Baumann.

“As emissões são tão relevantes devido à drástica e generalizada mudança no uso da terra. Há mais carbono no Chaco do que se supunha anteriormente. Isso significa que, se a expansão da fronteira agrícola continuar, os danos em termos de emissões de carbono deverão ser maiores do que se pensava”, acrescenta.

Por sua vez, Gasparri, que fez medições em campo, indica: “Comparando a superfície dessa região com a da Amazônia, ela emite muito. Ainda que tenha menos da metade da biomassa que uma floresta amazônica tem por hectare, suas emissões são equivalentes em ordem de grandeza”.

Desmatamento e desigualdade

O desmatamento no Gran Chaco argentino diminuiu na última década, embora os cientistas ainda não consigam descobrir o que realmente aconteceu.

A promulgação da Lei Florestal em 2007 na Argentina coincidiu com uma queda no preço das commodities. Muitas das áreas que permanecem para serem desmatadas estão longe da infraestrutura de transporte, portanto o custo de produção é desvantajoso. Há lotes que são liberados para a especulação imobiliária e nunca chegam a ser produtivos. 

As emissões são tão relevantes devido à drástica e generalizada mudança no uso da terra. Há mais carbono no Chaco do que se supunha anteriormente

Mesmo assim, a taxa de desmatamento na ecorregião permanece em torno de 100 mil hectares por ano, o que — embora um quarto do pico histórico — ainda é muito alto.

O desmatamento não está apenas avançando sobre a vegetação e a biodiversidade, mas também por comunidades tradicionais, muitas vezes violando seus direitos humanos. A distribuição da “riqueza” gerada pelo desmatamento tem sido totalmente desigual, provocando o deslocamento de comunidades que historicamente viviam na floresta.

Longe do Acordo de Paris

A produção de carbono é maior na agricultura do que na pecuária. Quando a agricultura é realizada em um campo limpo, mesmo as raízes são eliminadas, tudo é queimado, liberando o carbono acumulado no ato. Já quando o gado é criado, o solo é coberto com capim, que captura mais carbono do que a soja.

A discussão sobre as emissões do Chaco é relevante em um mundo que quer limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C em comparação com a era pré-industrial — o objetivo mais ambicioso do Acordo Climático de Paris. “Há mais pessoas nos mercados onde são consumidos os produtos da Argentina que começam a se interessar por esta questão”, adverte Baumann.

Segundo a Transparency for Sustainable Economies (Trase), uma plataforma que torna mais transparente a cadeia de commodities, a União Europeia e o Reino Unido estão entre os mercados mais expostos ao desmatamento do Chaco, através da compra do farelo de soja que é embarcado em portos de Santa Fé, na Argentina.

Enquanto o debate sobre o acordo comercial União Europeia-Mercosul continua travado devido ao crescente desmatamento da Amazônia, estudos sobre as emissões do Chaco também devem destacar o papel da destruição ecológica na região.

Due dilligence

A União Europeia e o Reino Unido discutem normas de due diligence para limpar as cadeias agroindustriais de desmatamento, da mesma forma que os grandes fabricantes de eletrônicos são obrigados a fornecer componentes que não venham de áreas onde os direitos humanos são violados.

A soja processada é utilizada para engordar porcos, vacas, galinhas e até salmão. Assim, a rica biodiversidade do Chaco está sendo substituída por um punhado de proteína que chega magicamente cortada e embalada nas prateleiras dos supermercados.

“O que usamos para alimentar porcos e frangos, assim como a carne que importamos, pode estar ligado ao desmatamento. Quando se toma a União Europeia como um todo, o desmatamento indireto na América do Sul é muito grande”, diz Kuemmerle.

Extração madeireira

O Gran Chaco tem uma variedade de árvores de madeira dura, entre elas, o Quebracho, cuja exploração em escala industrial faz parte da história da Argentina e forneceu um insumo essencial para a indústria têxtil na Revolução Industrial. 

Além de ter tanino e um belo tronco colorido, a espécie endêmica tem grande capacidade de reter carbono. São árvores de crescimento lento, sujeitas ao forte calor, com a capacidade de resistir por séculos, prestando serviços ambientais por gerações. 

“É difícil competir com a Amazônia, que é um ecossistema tão importante, com muitas espécies únicas e com grande importância na reciclagem da umidade”, reflete Kuemmerle. “Mas sistemas como o Cerrado ou o Chaco são er

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