Acordo da biodiversidade traz chance à China de mostrar liderança histórica global

O Pacto da Natureza, do G7, abre caminho para uma ambiciosa COP15 em Kunming — cidade chinesa que testemunhou migração incomum de elefantes selvagens

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Elefantes selvagens asiáticos no sudoeste da China. Neste verão, a manada migrou mais de 500 km de seu habitat em uma reserva natural (Alamy)

Se precisávamos de mais uma prova de que enfrentamos uma crise da biodiversidade, a jornada de uma manada de elefantes pela China deixou isso claro da forma mais comovente possível. 

Há meses, os animais caminham rumo ao norte de Xishuangbanna e suas peripécias — arrombando portas, abrindo torneiras d’água e até ficando bêbados — têm cativado o público. Mas também têm chamado a atenção para as razões dessa migração incomum. Especialistas acreditam que seja causada pela destruição das florestas fora das áreas de proteção, o que tem forçado os elefantes a encontrar novos lugares para viver.

Quando os elefantes asiáticos chegaram à cidade de Kunming, a administração local empregou uma série de táticas para afastar a manada, como bloquear estradas e colocar trilhas de abacaxi e milho para desviá-los. 

Kunming limpa sua trilha de abacaxi ao mesmo tempo em que se prepara para receber líderes mundiais na conferência da ONU da biodiversidade (COP 15). E uma manada de elefantes selvagens caminhando pela região é um forte símbolo da urgência com que a crise ambiental precisa entrar na agenda dos mandatários.

Como ecologista e explorador da National Geographic, tenho presenciado as consequências da superexploração do mundo natural. Enquanto as indústrias extrativas destroem a natureza em busca de lucro a curto prazo, cada vez mais pessoas entendem que um mundo natural saudável é essencial para um futuro seguro e equitativo para a humanidade.

600%

É quanto a abundância de peixes aumenta em áreas protegidas do oceano, em média, em comparação com as áreas desprotegidas

Líderes políticos também estão começando a sentir essa urgência. Na cúpula do G7 no mês passado no Reino Unido, eles lançaram o Pacto da Natureza de 2030, colocando,  pela primeira vez, a natureza, junto com as mudanças climáticas, no centro da agenda. O acordo ajudará a COP15 — e outras conferências, como a COP26 no Reino Unido — a integrar um momento histórico na busca de uma resposta coletiva à pior crise global que a humanidade já enfrentou. Cada reunião será uma oportunidade para os governos definirem uma direção clara para orientar políticas públicas, finanças, negócios e leis. 

O Pacto da Natureza do G7 lançou as bases das metas, e agora seu espírito precisa se refletir em um acordo global para a natureza que será assinado no âmbito da Conferência para a Biodiversidade na COP15. O primeiro rascunho detalhado deste novo plano global foi lançado no início de agosto. Ele precisará mobilizar novos financiamentos e fortalecer as políticas internas para ser capaz de proteger os ecossistemas preservados que restam no mundo, restaurar habitats degradados e transformar a forma como utilizamos nossas terras e mares e como produzimos nossos alimentos. Sei que proteger e restaurar ecossistemas funcionam, porque testemunhei em primeira mão a espetacular recuperação da biodiversidade em áreas protegidas de atividades humanas prejudiciais. No oceano, por exemplo, a abundância de peixes aumenta em média 600% em relação às áreas desprotegidas e ainda ajuda a reabastecer áreas vizinhas.

A próxima cúpula marca um momento importante para a China mostrar ao mundo o papel que pretende desempenhar na liderança ambiental. É a primeira grande cúpula ambiental global que a China sedia e ocorre após o país assumir compromissos climáticos ambiciosos. O meio ambiente é uma área de colaboração e competição produtiva em meio a relações geralmente tensas com os EUA — portanto, a China sabe que o sucesso da cúpula da biodiversidade terá implicações muito mais amplas.

US$700 bilhões

É a lacuna financeira anual da natureza equivalente a menos de 1% do PIB global

Se eles se basearem no acordo da natureza, os líderes do G7 têm uma forte chance de negociar um tratado sólido. Ministros de comércio e meio ambiente do G7 já concordaram em se reunir antes da COP26 para tomar medidas de enfrentamento ao desmatamento nas cadeias de abastecimento globais. Agora, eles precisam avançar com propostas sérias para regulamentar o fornecimento de bens associados à agricultura e à pesca insustentáveis e garantir acesso ao mercado para bens e alimentos produzidos de forma sustentável.

Em relação à proteção da natureza, as nações do G7 começaram de forma positiva ao assumir o compromisso de apoiar uma meta global para proteger 30% da terra e do mar até 2030, e de liderar pelo exemplo, implementando as promessas 30x30 em seus próprios territórios. Agora, uma coalizão de mais de 60 países endossa as metas, sendo metade das nações de renda baixa ou média do sul global. Elas se baseiam no espírito da política da própria China de proteger um quarto de seu território, traçando “linhas vermelhas” rígidas em torno de sua área mais biodiversa e vulnerável, protegendo-a da industrialização e preservando sua diversidade. Além disso, a COP da biodiversidade deve garantir que as metas sejam incorporadas aos resultados do acordo global e a leis domésticas. 

Os custos de implementação das metas 30x30 — estimados em US$140 bilhões por ano — são inferiores ao que o mundo gasta hoje em video games

Também será bem-vindo ver o direito dos povos indígenas reconhecido como crucial para o cumprimento das metas: há evidências sólidas de que povos indígenas e comunidades tradicionais são mais eficazes na proteção da biodiversidade do que a maioria das estratégias convencionais de conservação. Eles também precisam ser incluídos nas discussões para garantir que o acordo também funcione para eles.

A chave para o sucesso disto? Dinheiro. Muitos dos países mais biodiversos do mundo são nações em desenvolvimento e precisam de ajuda para financiar a transição 30x30 e atingir as metas de biodiversidade. Isto significa que o G7 precisa assumir compromissos sólidos para obter mais financiamento. A China precisa intermediar um acordo para preencher a lacuna financeira anual da natureza, estimada em US$700 bilhões — menos de 1% do PIB global —, para a próxima década, garantindo uma combinação de finanças públicas mais robustas e reformas nos fluxos financeiros do setor privado. Isso precisa ser complementado com uma forte ação interna para garantir que os gastos com ajudas bilaterais estejam alinhados à missão global de controlar e reverter a perda de biodiversidade até 2030. 

Se a China fizer da cúpula da biodiversidade deste ano um sucesso, ela será lembrada por intermediar um acordo global transformador

Há quem diga que não podemos gastar mais para proteger a natureza, mas os custos de implementação das metas 30x30 — estimados em US$140 bilhões por ano — são inferiores ao que o mundo gasta hoje em video games e representam uma fração do que governos utilizam para subsidiar indústrias que destroem a natureza. O dinheiro existe, mas, surpreendentemente, nós o usamos para destruir nosso sistema de suporte à vida em vez de preservá-lo.

Cidadãos se preocupam profundamente com as queimadas nas florestas, com a morte de animais e com a extinção de espécies. Isso faz da natureza um legado para líderes — e eles precisam atentar para a crise da natureza em cada G7, G20 e fórum multilateral para garantir que esse legado seja positivo. 

Se a China fizer da cúpula da biodiversidade deste ano um sucesso, ela será lembrada por intermediar um acordo global transformador. Se falhar, 2021 será o ano lembrado como aquele em que uma manada de elefantes atravessou um país em busca de um lar.