Brics mantêm coesão apesar de crises, baixa expectativa e Covid

Bloco do Sul Global se reuniu sem avançar na cooperação no clima, mas com impulso no financiamento do desenvolvimento e nas relações bilaterais

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No dia 9 setembro, décima terceira cúpula foi realizada virtualmente. Da direita para a esquerda, Xi Jinping (China), Narenda Modi (Índia), Vladimir Putin (Rússia), Jair Bolsonaro (Brasil) e Cyril Ramaphosa (África do Sul) (Divulgação Cúpula dos Brics)

 

 

Em meio a desinteresse público, ceticismo, crises internas e o cenário de Covid-19, os países dos Brics cumpriram semana passada seu compromisso de realizar uma cúpula anual sem mostrar os sinais de desunião que têm afetado o grupo nos últimos anos.

Afinal, o que mantém o bloco de nações emergentes coeso?

Na Cúpula dos Brics, os chefes de Estado de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul renovaram pela décima terceira vez a promessa de cooperação, em uma edição sem incidentes, como as farpas e improvisos do ano passado — mas também sem atrair o interesse público.

As buscas por notícias sobre os Brics no período da conferência tiveram um dos pontos mais baixos de atenção de sua história, segundo o Google Trends. Pesquisas online costumam ter picos de popularidade durante o evento, mas nunca despertaram tanto interesse como na cúpula de 2014, quando o bloco lançou o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), nem tão pouco como este ano.

Nações com economias em ascensão criaram os Brics em meio a grandes — talvez grandes demais — expectativas sobre seu potencial de redefinir a governança global. O atual ceticismo em relação a esse avanço pode estar por trás da pouca atenção dada ao grupo. Nem um dos mais entusiastas da ideia, o economista Jim O’Neill, que cunhou o acrônimo dos Brics há duas décadas, parece impressionado com seus últimos desdobramentos.

“O fracasso contínuo do bloco em desenvolver políticas substanciais por meio de sua cúpula anual tornou-se cada vez mais evidente”, escreveu O’Neill após o evento.

Primeira década de sucesso dos Brics

A frustração de O’Neill cresce ao lembrar do “sucesso estrondoso” das quatro nações fundadoras do BRICS na primeira década. A África do Sul se juntou ao grupo em 2010.

Em 2009, a Rússia sediou a primeira cúpula dos países emergentes, que buscavam uma voz mais ativa nas discussões da economia global em resposta à crise financeira que assolava o mundo.

Os Brics foram um ambiente de importante interlocução política

Em seus primeiros anos, “os países pressionaram por reformas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial e ofereceram uma alternativa à ordem financeira internacional ao criar o NBD”, destacou Karin Costa Vazquez, do Centro para Estudos dos Brics na Universidade Fudan.

Também nessa época que, com exceção da Rússia do grupo Basic, as nações “ofereceram outro caminho” nas negociações internacionais do clima após o “fracasso dos países desenvolvidos em definir uma agenda climática” e do “colapso [da COP15] de Copenhague”, lembrou Izabella Teixeira, que foi ministra do Meio Ambiente entre 2010 e 2016.

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Chefes de Estado se reúnem para o início da Cúpula do BRICS em 14 de novembro de 2019 em Brasília, antes de a pandemia assolar o mundo (Alamy)

“Os Brics foram um ambiente de importante interlocução política”, disse Teixeira ao Diálogo Chino. “Foi um momento super interessante de construção de confiança. Existia uma informalidade na conversa entre os ministros”. O papel diplomático do grupo, acrescenta Teixeira, “foi absolutamente importante” nas negociações que iriam mais tarde culminar com o Acordo de Paris em 2015.

Foi a partir daí, no entanto, que especialistas enxergam o início do esvaziamento dos Brics, à medida que crises econômicas e políticas sobrecarregaram os países-membros. O bloco vivenciou a recessão de Rússia, África do Sul e Brasil, as tensões entre China e Índia e a retórica beligerante anti-China do presidente Jair Bolsonaro — além da guinada do Brasil na desconstrução de políticas ambientais e em seu isolamento diplomático.

“O país entrou na contramão do mundo”, resumiu Izabella Teixeira.

Brics mantém relevância

Mesmo sem o brilho dos anos de glória, os Brics mantêm sua relevância hoje, segundo Costa Vazquez. “Os Brics são o único espaço que as maiores economias emergentes do mundo possuem para coordenar posições e propor iniciativas de interesse comum aos cinco membros. Isso não é pouco em se tratando de mais de 30% do PIB mundial”, disse.

Vazquez argumenta que, para funcionar, o multilateralismo do bloco foi dando lugar a mais acordos bilaterais. Dessa forma, há mais flexibilidade para limitar a cooperação quando os interesses divergem e ampliá-la quando convergem.

Você sabia?

Não existe um estatuto formal de regras nos Brics, e o grupo não funciona como um bloco econômico.

Como os Brics não funcionam como um bloco econômico, não existe um estatuto formal de regras que direcione seu comportamento. Ou seja, o custo de ser membro é baixo, e o benefício diplomático que isso gera ainda é expressivo, segundo Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas.

Relações diplomáticas mais fortes também podem refletir no crescimento do comércio bilateral. Por exemplo, as trocas entre Brasil e China devem bater novo recorde em 2021. Ano passado, o comércio bilateral atingiu US$ 101 bilhões pela primeira vez. Até agosto deste ano, o valor já superava os US$ 93 bilhões.

Não à toa, Bolsonaro adotou um tom mais ameno sobre a China na recente cúpula dos Brics. Enquanto isto, o presidente chinês Xi Jinping disse que, independentemente das dificuldades, os Brics manterão uma cooperação sólida e constante.

NBD traz esperança aos Brics

Apesar de poucas novas articulações em áreas históricas de cooperação como o clima, o principal produto do BRICS, o NBD, está ganhando força. Paulo Nogueira Batista Júnior, economista e vice-presidente do banco entre 2015 e 2017, foi um crítico à lentidão do NBD em produzir resultados e cumprir com suas aspirações de se tornar um banco global.

Hoje, no entanto, Batista Júnior enxerga avanços: “Nos últimos dois anos, o banco parece ter se movimentado um pouco mais e alcançou resultados”, disse. “Ele aprovou projetos, inclusive programas de apoio de combate à Covid-19, continua contratando funcionários, constituindo a sua sede, se desenvolvendo tecnicamente e inaugurou o processo de abertura de novos membros”.

É um banco que já faz parte da paisagem

No início de setembro, o NBD anunciou a inclusão de Uruguai, Emirados Árabes e Bangladesh como membros. Em seis anos de operação, aprovou cerca de 80 projetos, com investimentos de US$ 30 bilhões. Para o combate à Covid-19, o banco liberou US$ 10 bilhões aos países-membros dos Brics.

“É um banco que já faz parte da paisagem”, disse Batista Júnior. Seria o mesmo caso dos Brics?