China deixa de construir novos projetos a carvão no exterior

Completando um ano de sua promessa de neutralidade de carbono, China também apoiará países emergentes, como o Brasil, no desenvolvimento verde

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Usina movida a carvão no Rio Grande do Sul que recebeu investimento chinês. Projeto neutralidade carbono China Xi Jinping desenvolvimento política carvão verde renovável renováveis Brasil

A usina termelétrica Presidente Médici, no Rio Grande do Sul, é uma das poucas na América Latina que tem participação chinesa (Imagem: Alamy)

As crescentes pressões para que a China parasse de apoiar projetos de energia a carvão no exterior tiveram uma resposta. O presidente chinês Xi Jinping anunciou, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 21 de Setembro, que seu país "não construirá novas usinas elétricas a carvão no exterior", ao mesmo tempo em que aumentará seu apoio a países emergentes na busca de um desenvolvimento verde e com baixo teor de carbono.

US$ 50 bilhões

é o quanto a China já investiu em financiamento público em projetos de energia a carvão no mundo

O anúncio encerra a especulação sobre a posição da China no setor, um dos últimos financiadores públicos de projetos de energia a carvão no exterior, antes da cúpula climática em Glasgow em novembro. Desde 2013, China, Japão e Coreia do Sul contribuíram com 95% de todo o financiamento público global de projetos de energia a carvão fora de suas fronteiras. A China é a maior entre os três, fornecendo US$ 50 bilhões para financiar 56 GW de capacidade instalada.

O desenvolvimento da energia a carvão no exterior, apoiado pela China, já desacelerou nos últimos cinco anos, graças à diminuição da competitividade dessa energia em comparação com as renováveis e a redução do apetite dos países anfitriões. Um relatório do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea, em inglês) mostra que metade dos projetos a carvão com apoio chinês foi cancelado ou suspenso. Do início de 2021 até agora, a China não fez nenhum novo investimento do tipo, exceto em três contratos que talvez não se concretizem.

Tanto o Japão como a Coreia do Sul anunciaram nos últimos meses políticas para acabar com o financiamento público de projetos de energia a carvão no exterior. Com o anúncio do presidente chinês, agora os principais financiadores públicos do setor indicaram sua intenção de sair do mercado externo de uma forma ou outra.

A China é o primeiro país em desenvolvimento a assumir tal posição, disse Kevin Gallagher, diretor do Centro de Políticas de Desenvolvimento Global da Universidade de Boston. Ele agora cobra que o setor privado siga o exemplo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, saudou o anúncio feito pelo presidente Xi. "Acelerar a eliminação global do carvão é o passo mais importante para alcançar a meta de 1,5 ºC do Acordo de Paris", disse  em comunicado.

Compromisso precisa ser esclarecido

Não está claro como a China vai lidar com os projetos já planejados ou em construção. De acordo com os dados coletados pelo Centro de Política de Desenvolvimento Global, em meados de 2019, 13,5GW de energia a carvão no exterior com envolvimento chinês já haviam sido planejados e 20GW estavam sendo construídos. A pandemia pode ter interrompido parte disso.

Wang Yi, membro do Comitê Permanente do Congresso Nacional Popular da China e vice-presidente dos Institutos de Ciência e Desenvolvimento da Academia Chinesa de Ciências, disse ao China Dialogue que o escopo e a cobertura do compromisso contra o carvão ainda precisam ser esclarecidos:

"É quase certo que os bancos chineses e as empresas estatais não vão mais investir em energia a carvão no exterior. Mas será que o compromisso cobre todas as formas de investimento? E os projetos iniciados e financiados pelo país anfitrião? Os negócios comerciais ganhos por empresas privadas chinesas serão afetados? Esses precisam ser esclarecidos".

E os projetos iniciados e totalmente financiados pelo país anfitrião? Os negócios comerciais ganhos por empresas privadas chinesas serão afetados?

Nas redes sociais chinesas, como os grupos WeChat, a promessa desencadeou discussões acaloradas entre especialistas em clima e profissionais da indústria. Uma das discussões é se o compromisso vai englobar as usinas de energia construídas por empresas chinesas que atendem às necessidades de seus parques industriais no exterior.

Impactos na indústria

Chai Qimin, do Centro Nacional de Estratégia para as Mudanças Climáticas e a Cooperação Internacional, diz que muitas dessas usinas chinesas a carvão respondem à demanda do país anfitrião. Isso ocorre especialmente no Sudeste Asiático, onde a oferta de recursos naturais, o custo e a compatibilidade da rede tornam a energia a carvão uma opção atraente para os governos. Chai afirma que a China deixará de lado os retornos comerciais de tais projetos para cumprir seu compromisso com a ação climática, o que certamente resultará em perdas para suas indústrias a carvão, mas também criará oportunidades para as energias renováveis.

Alguns operadores do setor já respondem ao novo compromisso.  Tsingshan Holding Group, grupo privado chinês no ramo da siderurgia, anunciou logo após a promessa de Xi, através do seu canal oficial WeChat, que não construirá mais nenhum novo projeto de energia a carvão no exterior. Tsingshan investiu fortemente em países como Indonésia e Zimbábue. Em março deste ano, o grupo contratou a Shanghai Electric para construir uma usina elétrica a carvão de 3 X 380 MW para suprir seu parque industrial de aço e níquel na Indonésia. O pronunciamento no WeChat não mencionou como a nova decisão afetará o destino desse projeto.

O impacto do endurecimento da posição da China sobre a energia a carvão, tanto a nível doméstico como internacional, será sentido em todo o setor. Nas plataformas WeChat, membros da indústria, desde fornecedores de equipamentos a empresas de engenharia de energia a carvão, lamentaram as perspectivas da indústria. Por outro lado, os observadores também se perguntavam se a energia hidrelétrica e a nuclear sofrerão um boom no exterior.

Wang Yi diz que a China deveria informar como pretende reforçar seu apoio às energias renováveis nos países em desenvolvimento, oferecendo soluções alternativas para que esses países possam satisfazer suas necessidades energéticas. Ele sugere incluir economia de energia, medidas de eficiência energética e novos modelos que associem energia renovável a projetos de agricultura e redução da pobreza, para que as soluções de baixo carbono possam ser alinhadas com as necessidades de desenvolvimento local.

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Instalação de painéis solares na província de Salta, norte da Argentina, para um projeto liderado pela PowerChina (Imagem: Martin Zabala / Alamy)

Yuan Jiahai, professor da Universidade de Energia Elétrica do Norte da China, acredita que o anúncio possibilitará as empresas chinesas duplicarem seus investimentos em energia renovável nos países em desenvolvimento. Para isso, elas precisam antes fortalecer suas cadeias de produção localmente.

Christoph Nedopil, professor da Universidade Fudan, acredita que as usinas elétricas já em operação também merecem a atenção da China. Embora a execução de tais projetos esteja geralmente sob o domínio do país anfitrião, ele acredita que a China pode apoiá-los para acelerar a aposentadoria da energia a carvão.

Desbravando a neutralidade de carbono

Há um ano, em 22 de setembro, o presidente Xi surpreendeu o mundo ao anunciar os objetivos da China de atingir o pico de emissões de CO2 até 2030 e a neutralidade de carbono, que cobre todos os gases de efeito estufa, até 2060. Na época, a falta de detalhes em torno das metas deixou alguns observadores céticos sobre o compromisso da China. Esse questionamento foi aprofundado quando viram a impressionante recuperação econômica pós-pandêmica da China ser parcialmente alimentada por projetos de infraestrutura de altas emissões, incluindo usinas elétricas a carvão.

Posteriormente, a China seguiu com um novo conjunto de metas climáticas para 2030 no âmbito do Acordo de Paris e, em março deste ano, revelou suas metas climáticas e energéticas para 2025 no âmbito do 14º Plano Quinquenal.

Wang Yi disse ao China Dialogue que, no último ano, a China tem "fortalecido suas metas climáticas com documentos da política que pretende seguir, gradualmente deixando claro seu caminho para o pico e a neutralidade de carbono".

Se a China quer ser um verdadeiro líder, há necessidade de ser coerente com o que faz internamente e com o que faz no exterior

Em abril deste ano, na Cúpula dos Líderes pelo Clima, o presidente Xi se comprometeu a atingir o pico do consumo doméstico de carvão da China até 2025, fornecendo mais um marco de curto prazo na política climática do país. O anúncio também sinalizou a retração do apoio ao carvão na China. De acordo com o Greenpeace, as novas licenças de energia a carvão pelos governos provinciais da China caíram 78,8% no primeiro semestre de 2021 comparado ao ano anterior. Nenhum grande projeto a carvão foi aprovado (exceto projetos combinados de aquecimento e eletricidade) após o anúncio de Xi em abril.

Com um novo grupo de líderes para as metas climáticas estabelecidas em maio, liderado pelo vice-primeiro-ministro chinês Han Zheng, a política climática na China acelerou. Um conjunto de ações (o chamado quadro de políticas "1+N") está em fase de elaboração.

De acordo com a enviada especial da China para o clima, Xie Zhenhua, ele incluirá reformas da estrutura energética, melhorias industriais, edifícios com baixo teor de carbono, transporte verde, entre outros. Chai Qimin disse ainda ao China Dialogue que a criação desse conjunto de políticas serve para tornar mais clara a rota da neutralidade, assim como mobilizar os governos central e locais e as indústrias.

A pegada energética da China no exterior era a única área intocada pela política climática de alto nível. Isso até semana passada. Com o novo compromisso, Yuan Jiahai acredita que a China demonstrou sua convicção de se tornar um líder nas ações climáticas globais.

"A promessa de neutralidade de carbono da China não cobre as emissões de carbono de suas empresas em outros países. Mas se a China quer ser um verdadeiro líder, há necessidade de ser coerente com o que faz internamente e com o que faz no exterior", disse Yuan.