Relatório do IPCC: crise climática se aprofunda na América Latina

Mais recente painel da ONU adverte sobre aumento das doenças relacionadas ao calor e das ameaças à segurança alimentar e à água

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Uma menina caminha por uma área devastada por incêndios florestais na Argentina, em fevereiro de 2022 (Imagem: Matías Baglietto / Alamy)

Um novo relatório científico alerta para os impactos irreversíveis das mudanças climáticas nas próximas décadas e aponta a América Latina como altamente exposta, com a vulnerabilidade da região exacerbada por fatores sociais e econômicos, tais como altos níveis de pobreza e desigualdade. 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne cientistas climáticos de todo o mundo, publicou seu mais recente relatório em 28 de fevereiro, destacando que as mudanças na natureza causadas pelo clima afetam a vida de bilhões de pessoas.

O mundo enfrentará muitos riscos climáticos nas próximas décadas, muitos deles irreversíveis. As mudanças climáticas aumentarão a incidência de doenças relacionadas ao calor, afetarão a segurança alimentar e tornarão mais difícil o acesso à água. As consequências serão ainda mais acentuadas se o aquecimento global exceder 1,5°C, acima dos níveis pré-industriais, meta do Acordo de Paris de 2015.

"Este relatório é um aviso urgente sobre as consequências da inação", disse Hoesung Lee, presidente do IPCC, durante uma coletiva de imprensa. "As mudanças climáticas são uma ameaça séria e crescente ao nosso bem-estar e a um planeta saudável. Nossas ações de hoje vão determinar como as pessoas se adaptam e a natureza responde aos crescentes riscos climáticos".

Impactos na América Latina

Thelma Krug, vice-presidente do IPCC, disse que a América Latina enfrenta mais vulnerabilidades devido às mudanças climáticas do que os países desenvolvidos, "cujos efeitos são agravados pela pobreza e desigualdade". Isto pode afetar o papel da região na produção de alimentos e levar à insegurança alimentar, acrescentou ela. 

Por exemplo, entre 2015 e 2019, a duração de crescimento da safra – o tempo entre a semeadura e a colheita – da soja diminuiu 4,7% na América Central, 3,1% no noroeste da América do Sul e 2,7% no sudeste da América do Sul. Enquanto isso, a duração do crescimento do milho no mesmo período caiu 5% na América Central, 5,6% no noroeste da América do Sul e 5,2% no sudoeste da América do Sul. Essas mudanças podem e continuarão a interromper os ciclos e os rendimentos estabelecidos.

Eventos climáticos extremos já estão afetando a América Latina e estão projetados para aumentar. A lista inclui o aumento da temperatura e do nível do mar, a erosão costeira e o aumento da frequência de secas, que estão associadas a uma queda no abastecimento de água, assim como impactos na saúde humana, agricultura e pesca. Por exemplo, o número de eventos climáticos extremos na América Central aumentou 3% ao ano nos últimos 30 anos, revela o relatório.

A Amazônia, um dos maiores reservatórios de biodiversidade e carbono do mundo, é altamente vulnerável à seca. A exposição a secas no bioma aumentou de 8% em 2004–2005 para 16% em 2015–2016, em parte atribuída às mudanças climáticas. Isso levou ao aumento da mortalidade das árvores e a um declínio na produtividade de suas florestas.

“As mudanças climáticas e seus efeitos associados, como degradação florestal, fogo, desmatamento, levando à fragmentação da paisagem, têm tornado a floresta mais vulnerável. Isso leva a uma perda de sua capacidade de armazenar carbono”, disse o autor do IPCC Jean Ometto, cientista do Brasil. “Em regiões do sul da Amazônia, nós já identificamos eventos de precipitação extrema ou de secas mais intensas. E isso está impactando inclusive a produção agrícola dessas regiões”. 

Em toda a América Latina, as pessoas estão ficando mais expostas aos perigos dos incêndios florestais, com exposição entre um e 26 dias adicionais no período 2017–2020, em comparação com 2001–2004.

Desde meados do século 20, o aumento da precipitação média tem tido impacto positivo sobre a produção agrícola no sudeste da América do Sul. Em contrapartida, a falta de chuvas afetou a agricultura de subsistência no Corredor Seco da América Central, comprometendo a segurança alimentar.

Na região andina, o derretimento das geleiras, o aumento da temperatura e a variação da precipitação, juntamente com a mudança no uso da terra, afetam os ecossistemas, a disponibilidade de água e a subsistência.

Desde 1980, 30-50% das geleiras foram perdidas, de acordo com o IPCC. As geleiras do sul dos Andes apresentam as maiores taxas de perda de massa em todo o mundo e contribuem para a elevação do nível do mar. O recuo das geleiras, juntamente com o aumento da temperatura e a variabilidade das chuvas, afetaram ecossistemas, recursos hídricos e meios de subsistência.

A região andina, o Nordeste do Brasil e os países do norte da América Central são as regiões mais vulneráveis à migração e ao deslocamento climático. Fatores sociais, políticos e econômicos interagem com eventos climáticos extremos, tais como furacões, enchentes e tempestades tropicais. 

"A vulnerabilidade de nossos países às mudanças climáticas depende de uma série de variáveis interligadas, como os ecossistemas dos quais dependemos e que nos sustentam, a pobreza, o acesso a serviços básicos e a educação", disse Edwin Castellanos, autor do relatório e cientista da Guatemala. 

Futuro e adaptação

Se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas, os riscos para a América Latina aumentarão significativamente, de acordo com o relatório. Esses incluem secas, aumento das epidemias a partir de doenças transmitidas por vetores e a insegurança hídrica devido ao recuo das geleiras e à diminuição da cobertura de neve.

Por exemplo, secas mais frequentes, curtas e severas são projetadas na bacia do Prata, que se estende pelo norte da Argentina, Uruguai, Paraguai, leste da Bolívia e sul do Brasil.

Espera-se que os impactos na subsistência rural e na segurança alimentar, especialmente para os pequenos e médios agricultores e povos indígenas, se agravem, incluindo uma redução geral na produção agrícola, disponibilidade de terra agrícola e água. Até 2050, são projetadas reduções de produtividade de 19% no feijão, 23% no arroz e entre 4% e 21% no milho na América Central.

Da mesma forma, espera-se que as secas sazonais se prolonguem, intensifiquem e aumentem sua frequência, assim como os eventos de precipitação extrema. Estima-se que até 85% dos hotspots ricos em biodiversidade da região serão afetados negativamente pelas mudanças climáticas.

Quanto mais cedo começarmos a nos adaptar, mais baixo será o custo. É muito mais barato investir em prevenção e adaptação do que investir em pós-catástrofe

Os efeitos das mudanças climáticas e do uso da terra, particularmente o desmatamento, poderia aumentar a ameaça à Amazônia, levando ao aumento da ocorrência de incêndios, à degradação da floresta e à perda a longo prazo da estrutura florestal. Um aumento de 1,5°C resultaria em um aumento de até 200% nas populações afetadas por enchentes na Colômbia, Brasil e Argentina, 300% no Equador e 400% no Peru.

"Quanto mais cedo começarmos a nos adaptar, mais baixo será o custo. É muito mais barato investir em prevenção e adaptação do que investir em pós-catástrofe", disse Liliana Miranda, autora do IPCC e cientista do Peru. "Temos uma janela de oportunidade para adaptar e reduzir a vulnerabilidade da América Latina". 

Para o IPCC, o principal obstáculo para a adaptação às mudanças climáticas na América Latina é o financiamento. No Acordo de Paris, países desenvolvidos se comprometeram a fornecer US$ 100 bilhões em fundos de adaptação e mitigação aos países em desenvolvimento, uma meta que até agora não foi atingida.

Segundo o relatório, várias medidas de adaptação já estão em andamento na região, tais como a melhoria da quantidade e qualidade do abastecimento de água, a diversificação de culturas, sistemas de alerta precoce, o pagamento por serviços ambientais, a infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza e observatórios de saúde climática.

A adaptação efetiva dependerá de políticas e ações em muitas escalas, envolvendo as partes interessadas de todos os grupos sociais, incluindo as populações mais expostas e vulneráveis, de acordo com o IPCC. O conhecimento indígena e local é crucial para a adaptação e resiliência às mudanças climáticas. 

"A ciência não tem sido respeitada ou ouvida. Os governos só se importam se estão ganhando poder ou dinheiro", disse Gregorio Mirabal, chefe do Órgão Coordenador das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica). "Não temos sido capazes, como humanidade, de respeitar a natureza, e agora corremos contra o tempo".