Peru corre contra o tempo para aumentar produção de gás natural

Enquanto o mundo começa a considerar fontes de energia limpa, o presidente Castillo se mantém fiel à ideia de oferecer o gás a todos os peruanos. Mas qual é a viabilidade disso?

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Trabalhadores na usina de gás natural de Las Malvinas, parte do projeto Camisea na Amazônia peruana (Imagem: Enrique Castro-Mendivi / Alamy)

Pedro Castillo, presidente do Peru há menos de um ano, insiste que irá "massificar" a produção e o consumo de gás natural para o benefício de todos no país.

O combustível responde por mais de 40% da energia do Peru graças à descoberta do campo de Camisea no departamento de Cusco, na Amazônia peruana. É o maior projeto de extração de gás natural do país e representa 90% das reservas nacionais.

Porém, ao mesmo tempo em que Castillo deseja continuar explorando o gás, ele também garante estar comprometido com a meta de tornar o Peru neutro em carbono até 2050, repetindo a promessa de seu primeiro discurso à nação.

"Nosso governo reforça seu compromisso com a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas", disse, sem citar ações concretas.

Como Castillo conseguirá conciliar suas promessas de zero-carbono e de gás natural para todos os peruanos?

Interesses concorrentes: gás e energias renováveis no Peru

Brendan Oviedo, presidente da Sociedade Peruana de Energia Renovável, disse ao Diálogo Chino que o governo deseja incentivar a energia solar e eólica, mas adverte que seguidas trocas de funcionários nos ministérios "provocam atrasos e atravancam o processo".

Em apenas nove meses de governo, Castillo já enfrenta uma crise política, sobrevivendo a duas tentativas de impeachment. Além disso, trocou seu gabinete quatro vezes, movimentando principalmente os ministros da Energia e das Minas.

"As declarações políticas necessárias já foram feitas. Falta apenas canalizá-las e fazer mudanças regulatórias que chamem a atenção dos investidores", disse.

Essas mudanças regulatórias, no entanto, andam mais rápido para o gás natural do que para as energias renováveis. Até agora, a atual administração não lançou nenhum plano para incentivar fontes limpas, mas já apresentou duas grandes estratégias para levar combustíveis fósseis aos lares peruanos.

36,9%

É o quanto o gás natural representa na matriz energética peruana, segundo dados do Ministério de Energia e Minas.

Uma delas é o projeto de lei sobre a Promoção da Massificação do Gás Natural (P.L. 679), que busca acelerar a construção de gasodutos com investimentos públicos. Ele também prevê a implementação de uma tarifa única para o gás.

A outra é o relatório da Comissão Multisetorial para a Massificação do Gás Natural, publicada em janeiro de 2022, que propõe estender o conceito de massificação aos setores industrial, automotivo e residencial.

Para esse fim, a comissão propôs o relançamento do Gasoduto do Sul do Peru ou SIT Gas. O projeto tem capacidade para transportar até 14 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Mas ele está paralisado desde 2016 devido a problemas financeiros com sua ex-operadora Odebrecht, agora Novonor, por conta dos casos de corrupção com a construtora.

Para relançar o gasoduto, entretanto, a comissão diz ser necessário explorar novas reservas de gás natural.

Reservas e exploração de gás do Peru

Números oficiais recentes sobre o volume de gás natural disponível no Peru constam de um relatório publicado em 2021 pelo Ministério de Energia e Minas. Segundo o documento, as reservas comprovadas de gás natural totalizaram 283 bilhões de metros cúbicos em 2019. Isso representa uma queda de 37% da registrada em 2016.

Víctor Murillo, ex-vice-ministro de Hidrocarbonetos, disse ao Diálogo Chino que a redução é explicada pela incapacidade do Peru de encontrar e explorar mais reservas de gás natural.

"Hoje temos quase o mesmo volume de gás natural descoberto [no início do século]", afirmou Murillo. “Esse gás deve ser suficiente somente para os próximos 25 anos".

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Humberto Campodónico, assessor-chefe da comissão multissetorial, estima que, para viabilizar o SIT Gas, seriam necessários 30 anos de reservas comprovadas de gás natural. Para manter essa meta, seria urgente negociar com o Consórcio Camisea, composto por empresas peruanas e internacionais que controlam dois lotes no campo.

Também fundamental é o lote 58, da Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC), que tem até 98 bilhões de metros cúbicos de gás natural, atrás apenas do lote 88, da PlusPetrol da Argentina.

"Para que o gás seja amplamente usado, ele tem que ser levado aos mercados consumidores, no caso casas e indústrias. Mas como ele pode ser transportado? O SIT Gas é uma opção, porque teremos de 25 a 30 anos para explorar o gás que temos", disse Renato Lazo, especialista em energia e diretor administrativo da Energía ConTacto.

Crise mundial do gás

Especialistas veem uma oportunidade para o Peru na crise energética global que aflige a Europa há meses e que tem sido agravada pela guerra na Ucrânia.

De fato  , a escassez de gás natural na Europa por conta do conflito armado catapultou o preço do combustível para níveis recordes e forçou os países a procurar outros fornecedores, inclusive em locais distantes para eles, como o Peru. Vale lembrar que a Rússia, sozinha, fornece 45% do gás consumido pelos europeus.

"A crise energética fez com que a Europa e a China percebessem que uma transição energética muito rápida elevará muito rapidamente os preços da eletricidade. Por pior que seja, essa situação nos deixou um pouco mais cientes dos objetivos ambientais que podem ou não ser alcançados", diz Renato Lazo.

A Agência Internacional de Energia lançou um plano de dez pontos para reduzir a dependência do gás russo pela Europa. Ele inclui aumentar a importação de gás natural de outros países, assim como acelerar o desenvolvimento da energia solar, eólica e nuclear.

Para vários especialistas, isso reforça a ideia de que o gás natural é um trampolim para a transição energética, posição que é compartilhada pela Sociedade Peruana de Energias Renováveis (SPR).

"O gás natural desempenha um papel importante na transição para uma matriz energética limpa, uma vez que complementa o aumento progressivo das energias renováveis. Sozinho, não é um recurso de transição, mas é um recurso que ajudará a viabilizar a transição", diz Brendan Oviedo.

Embora as energias renováveis sejam muito mais competitivas do que o gás natural, diz Murillo, elas têm uma desvantagem: a falta de sol ou vento limita sua eficiência.

"A intermitência sempre foi um limitador ao crescimento das energias renováveis, mas o desenvolvimento de baterias capazes de armazenar grandes quantidades de energia está mudando isso", escreveu a empresa de baterias Energy Exploration.

À medida que essa tecnologia se desenvolve, disse Oviedo, o papel do gás natural é garantir uma reserva de apoio às energias renováveis.

Entretanto, outros especialistas argumentam que o gás natural se tornou mais um "muro" do que uma ponte para a transição energética. Isso porque, com o aumento das emissões globais, o tempo está se esgotando. Algumas razões para isso são a potência do metano e a demanda de combustível para transportar o gás, em forma natural e liquefeita, assim como as emissões dos vazamentos.

O gás natural desempenha um papel importante na transição para uma matriz energética limpa

Com essa posição ganhando força nas discussões sobre planejamento energético no mundo desenvolvido, empresas de gás buscam cada vez mais oportunidades em países em desenvolvimento com reservas inexploradas. No entanto, isso arrisca prendê-los em decisões de política energética de longo prazo que sejam insustentáveis, dizem críticos.

O gás natural também não está imune à nova dinâmica financeira global, hoje mais voltada a conceder empréstimos a projetos de energia renovável do que de hidrocarbonetos. Como consequência, todas as novas refinarias e oleodutos começaram a experimentar aumentos nas taxas de juros e dificuldades para garantir crédito.

"Se não construirmos o SIT Gas e outros gasodutos nos próximos cinco anos, o gás natural terá o mesmo destino da borracha, porque haverá cada vez menos instalações para produzi-lo", alerta Lazo, lembrando o boom da borracha no início do século 20 minguou assim que o Sudeste Asiático começou a produzi-la de forma mais competitiva que o Peru.

Intervenção estatal é opção

"Em dois ou três anos poderemos ter redes de gás em Cusco, Ayacucho, Pucallpa e Huancayo, onde existem demandas por gás. E mecanismos também", diz Victor Murillo, que sugere seguir exemplos como o da Colômbia e Bolívia, onde o Estado intervém diretamente, em vez de deixar a produção com empresas privadas, como ocorre no Peru.

Os mecanismos citados por Murillo são o Fundo de Inclusão Social Energética (Fise), utilizado para subsidiar as conexões de gás doméstico, e o Sistema de Segurança Energética de Hidrocarbonetos (Sise).

A ideia, diz Murillo, seria confiar a construção de tais redes às estatais de eletricidade, que sofreriam "uma pequena reforma" para poderem fazer o trabalho rapidamente, usando fundos públicos do Fise e Sise.

Natural gas Latin America
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Tal mudança precisaria ser complementada pela construção de gasodutos interregionais, como o SIT Gas e uma possível linha a norte, conectando o gasoduto TGP (Camisea-Lima) com o que está atualmente sendo construído em Piura pela Promigas.

Essa última ideia é, contudo, mais fácil de ser dita do que executada. A própria Comissão Multissetorial para a Massificação do Gás Natural reconheceu isso e posteriormente cobrou que o governo declarasse o Gás SIT como de interesse nacional. A estatal Petroperú poderia administrar as redes de gás.

A proposta de Murillo está descrita em detalhes no relatório de 270 páginas da comissão multisetorial enviado ao Executivo em janeiro. O documento preocupa sindicatos do setor de petróleo e energia, já que nenhum deles foi consultado a respeito.

Brendan Oviedo, presidente da SPR, diz que o documento precisa ser revisado com urgência, já que apenas três páginas fazem referência às energias renováveis. “Por isso é necessária uma avaliação por todos os setores envolvidos direta e indiretamente", afirma.

O prazo para a consulta expirou em 28 de janeiro. Até hoje, entretanto, o governo peruano não deu sinais de que aprova ou rejeita o documento, ocupado que está com a crise política que assola o país.