América Latina de olho na COP27: 'O tempo de nos ver como vítimas acabou'

Líderes defendem que a região desempenhe um papel mais ativo na Cúpula do Clima de novembro, à medida que as mudanças climáticas deixam o continente cada vez mais vulnerável

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Trabalhador carrega árvores para o plantio como parte de um projeto de reflorestamento em Mato Grosso, em 2020. A América Latina é uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas, mas projetos de adaptação e mitigação crescem no continente (Imagem: Alexandre Meneghini / Alamy)

A América Latina é uma das regiões do mundo mais afetadas pelas mudanças climáticas. Eventos climáticos extremos — como secas, ondas de calor, ciclones tropicais e enchentes — causaram dezenas de mortes e severos danos à produção agrícola e à infraestrutura, como destacado recentemente em um relatório regional da Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês).

Conforme os eventos climáticos aumentaram em frequência e intensidade, eles também impulsionaram o deslocamento de milhões de pessoas. Com as temperaturas médias da região projetadas para aumentar a taxas acima da média global, espera-se que essas crises convergentes se aprofundem nas próximas décadas.

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Com a proximidade da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 27), fica cada vez mais evidente que a América Latina precisa do apoio da comunidade global. Em uma região assolada por dificuldades econômicas, há muito tempo existem apelos por mecanismos financeiros que apoiem esforços multifacetados para combater os efeitos das mudanças climáticas, tanto em nível local quanto regional — apelos esses que devem crescer diante da frustração deixada pela COP26, realizada no ano passado.

É possível perceber uma mudança de tom em alguns cantos da América Latina antes da cúpula, que será realizada no Egito, em novembro, com vozes proeminentes cobrando que a região desempenhe seu próprio papel, cada vez mais assertivo, nas negociações climáticas e na condução de ações regionais pelo clima.

Impactos das mudanças climáticas na América Latina

O relatório da WMO expõe alguns dados alarmantes sobre os impactos das mudanças climáticas na América Latina. Os glaciares nos Andes perderam quase 30% de sua área desde os anos 1980, aumentando o risco de escassez de água para as populações e ecossistemas da região —  além do risco de inundações para as comunidades próximas a eles.

Em 2021, o nível do mar na região, especificamente da costa atlântica, também subiu a um ritmo mais rápido do que o da média global, aumentando o alerta para inundações, contaminação de água doce e casos de tempestades nas áreas costeiras, regiões de maior concentração populacional.

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O relatório também destaca a intensificação da megaseca no Chile, que entrou em seu décimo terceiro ano, tornando-a a mais longa e mais severa em mil anos. O aprofundamento da seca tem forçado autoridades chilenas a aprimorar a gestão da água, à medida que tensões sociais aumentam em algumas áreas do país, e tratar do fornecimento de eletricidade para responder por um déficit na produção de energia hidrelétrica — uma fonte extremamente importante para a matriz energética do Chile.

Como um todo, as secas na América do Sul contribuíram para um declínio de 2,6% na colheita de cereais em 2020 e 2021, em comparação com a estação anterior, segundo dados da WMO. As ameaças à produção agrícola da região — e consequentemente, à economia — foram agravadas por ondas de calor.

No lançamento da primeira edição do relatório Estado do Clima para a América Latina, da WMO, em 2021, o secretário-geral da organização, Petteri Taalas, enfatizou como o continente é "uma das regiões mais desafiadas por seus eventos hidrometeorológicos extremos" — uma afirmação que ganhou ainda mais peso com a edição do relatório de 2022.

A América Latina e o Caribe estão entre as regiões mais desafiadas por seus eventos hidrometeorológicos extremos

Taalas mencionou uma série de eventos climáticos extremos recentes, destacando "a morte e devastação causada pelos furacões Eta e Iota na Guatemala, Honduras, Nicarágua e Costa Rica, e a intensa seca e os incêndios incomum no Pantanal do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina".

Os impactos mais graves desses eventos, acrescentou o secretário-geral, incluem "a escassez de água e energia, perdas agrícolas, deslocamento e comprometimento da saúde e segurança" das pessoas, as quais, em conjunto, "agravaram os desafios" impostos pela pandemia da Covid-19 e sua recuperação.

Permanecer na adversidade

As nações da América Latina e do Caribe são responsáveis por menos de 10% das emissões anuais globais de gases de efeito estufa, com a maior parte de suas contribuições provenientes do setor energético, da agricultura e de mudanças no uso da terra. Mas em sua maior exposição a eventos extremos e mudanças acima da média, a região é a que mais paga o preço das emissões dos maiores poluidores.

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Houve uma mudança de tom perceptível entre alguns participantes da recente Semana do Clima na América Latina e no Caribe, realizada na República Dominicana, em julho. Alguns especialistas fizeram questão de assegurar que a América Latina não estaria entrando nas próximas negociações climáticas simplesmente como "vítima", mas como participante ativo e que define a direção das ações em prol do clima.

Max Puig, vice-presidente-executivo do Conselho Nacional para Mudanças Climáticas da República Dominicana, enfatizou que a América Latina e o Caribe chegarão à COP27 com uma posição firme: "O tempo de nos vermos como vítimas do clima acabou. Embora de fato o sejamos, o momento de assumir o leme do navio já começou".

"Deve ficar claro para nossos povos e para o mundo que estamos falando sério e que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, não vamos parar. Vamos superar as dificuldades. Essa é a mensagem que a América Latina e o Caribe estão levando para a COP27 no Egito".

O tempo de nos vermos como vítimas do clima acabou. Embora de fato o sejamos, o momento de assumir o leme do navio já começou

"Depois de passar vários dias na Semana do Clima da América Latina e Caribe deste ano, vi que os países da região estão avançando. Também vi o potencial para acelerar a ação climática", afirmou Ovais Sarmad, vice-secretário-executivo da ONU para as mudanças climáticas, após a conclusão do evento, ao Diálogo Chino. "Ouvimos muitas possíveis soluções esta semana".

Adaptação, soluções e oportunidades

Embora enfrente enormes desafios, a América Latina também provou ser um centro de soluções inovadoras para combater os efeitos das mudanças climáticas. A região tem grande potencial em energias renováveis, como a eólica, solar e geotérmica. Também houve avanços no setor de transportes, particularmente com o avanço da frota de ônibus elétricos e de carros elétricos particulares.

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A América Latina e o Caribe também causado boa impressão com soluções para a adaptação e mitigação climática, muitas das quais podem ser replicadas em outras regiões de acordo com as necessidades e contextos. Muitas dessas soluções têm sido vistas no setor agrícola, com algumas derivadas de conhecimentos ancestrais e práticas históricas que promovem uma melhor gestão da água, da terra e de recursos energéticos.

Práticas dentro do escopo da agricultura regenerativa também ganham mais espaço na região. O sistema silvipastoril, por exemplo, que integra árvores nativas a sistemas agrícolas, pode aumentar a produtividade e a biodiversidade e contribuir para um maior sequestro de carbono. Enquanto isso, ecossistemas costeiros como manguezais e pântanos ganham reconhecimento por seu potencial de mitigar os impactos das mudanças climáticas ao sequestrar carbono, ao mesmo tempo em que proporcionam uma série de outros benefícios. 

As florestas também são um elemento estratégico de sequestro de carbono, mas que enfrentam ameaças graves — como é o caso do desmatamento de biomas importantes como a Amazônia, o Cerrado e o Gran Chaco.

Os incêndios e o desmatamento ameaçam um dos maiores estoques de carbono do mundo, com repercussões de longo alcance e duradouras

"Com quase metade de sua área coberta por florestas, a América Latina e o Caribe representam 57% das florestas primárias remanescentes do mundo, armazenando 104 gigatoneladas de carbono. Os incêndios e o desmatamento ameaçam um dos maiores estoques de carbono do mundo, com repercussões de longo alcance e duradouras", disse Taalas, da WMO, no lançamento do relatório do ano passado.

O documento também enfatizou a necessidade de fortalecer os sistemas de alerta sobre eventos climáticos extremos na América Latina, o que poderia evitar milhões de mortes. São ferramentas essenciais para uma adaptação eficaz em áreas de risco.

A implementação dessas soluções, contudo, depende do aumento do financiamento para as ações pelo clima — um item que deve estar no topo da agenda da América Latina na COP27.

 

A COP27 será realizada de 6 a 18 de novembro de 2022 em Sharm el-Sheikh, no Egito.