OPINIÃO | A China no setor elétrico brasileiro: tendências e oportunidades

Investidores chineses se tornaram fundamentais no setor elétrico do Brasil na última década. Há oportunidades que vão além da energia hidrelétrica

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Investimentos chineses são fundamentais para a expansão do setor elétrico brasileiro

Investimentos chineses desempenham um papel fundamental para a expansão do sistema elétrico brasileiro desde 2010, ano de sua primeira aquisição no país (imagem: Alamy)

Levou menos de uma década para que os investidores chineses passassem de “os novos do pedaço” para os principais atores do setor elétrico brasileiro. Isso foi possível graças a  uma combinação de aquisições e novos projetos desde seu primeiro grande investimento no Brasil em 2010.

Até 2019, nada menos que 14 empresas chinesas de energia elétrica haviam investido ou estavam envolvidas em projetos de construção no Brasil no valor de 36,5 bilhões de dólares. A geração é o setor preferencial e as fontes renováveis, como a energia hidrelétrica e eólica, receberam a maior parte dos investimentos.

Essas são algumas das conclusões de um novo working paper publicado pelo Global Development Policy Center (GDP Center, sigla em inglês) da Universidade de Boston. Nesse documento, analiso a evolução histórica, características, tendências e oportunidades futuras dos investimentos chineses no setor elétrico brasileiro.

Uma grande tendência perceptível é o foco em energia renovável: a capacidade instalada da maioria das empresas chinesas no Brasil se concentra nesse tipo de fonte. Isso contrasta com o investimento chinês em geração de energia em outros países, ainda dominada pelo carvão, como mostra o Banco de Dados Global de Energia da China do GDP Center. O caso brasileiro mostra que os atores chineses concentram seus investimentos em energia onde o país anfitrião tem uma vantagem natural ou uma abundância de recursos.

Esse montante significativo de capital investido permitiu que as empresas chinesas se tornassem os principais atores estrangeiros no setor elétrico brasileiro. Já em 2019, elas representavam 10%, 12% e 12% dos segmentos de geração, transmissão e distribuição do país, respectivamente. As empresas chinesas ocupam o segundo, terceiro e quarto lugares em termos de porcentagem de nacionalidades.

A State Grid e a China Three Gorges Corporation (CTG) são as empresas chinesas pioneiras no Brasil, país que se tornou o destino de mais da metade de seus gastos no exterior. No segmento de geração, a CTG já é a segunda maior geradora de energia elétrica. Cerca de 48% da geração hidrelétrica do estado de São Paulo está nas mãos de atores chineses.

Além das aquisições de empresas locais, as corporações chinesas se envolveram em novos projetos, como as extensas linhas de transmissão da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construídas pela State Grid. Essas linhas são estrategicamente relevantes para a segurança energética do Brasil, já que ajudam a aliviar o gargalo entre a oferta e a demanda. Também trouxeram para o país uma nova tecnologia de ultra-alta tensão (UHV, sigla em inglês).

Os projetos de eletricidade da China no Brasil são parte de um impulso de investimento internacional no setor que ganhou força após a crise financeira global de 2008. As empresas chinesas estão entre os principais investidores no segmento de energia global, geralmente apoiadas pelos bancos de desenvolvimento China Development Bank e o Export Import Bank of China, hoje o maior fornecedor mundial de financiamento de energia. O Brasil está na vanguarda desta expansão global, já que a maior parte dos ativos de geração de energia da China no exterior está concentrada no país.

As empresas chinesas continuarão a ser atores decisivos na expansão do setor elétrico brasileiro durante as próximas décadas

Há múltiplas razões para essa preferência. Entre elas, os vastos recursos energéticos ainda inexplorados do Brasil oferecem uma terra de oportunidades de negócios. O país é o terceiro país do mundo mais atraente para o investimento estrangeiro direto em energias renováveis, uma posição acima da China, de acordo com a Bloomberg NEF. Além disso, na sequência da crise financeira de 2008, os investidores internacionais sofreram com crises de dívida e falta de liquidez. Várias empresas norte-americanas e europeias venderam suas subsidiárias no exterior, e algumas foram adquiridas por contrapartes chinesas.

O Brasil também sofreu o impacto da recessão global e passou por uma deterioração das condições macroeconômicas a partir de 2013. A eclosão de um escândalo de corrupção em 2014 enfraqueceu várias concessionárias nacionais, e algumas precisaram desinvestir ativos em energia. Um exemplo é a grande empresa brasileira de eletricidade CPFL, comprada pela State Grid.

Os investimentos chineses no setor elétrico do Brasil também fazem parte de uma tendência maior: empresas de energia elétrica da China têm comprado ativos de energia em toda a América Latina, região que passou por crises econômicas nos últimos anos. A conjuntura ofereceu uma oportunidade de negócio não apenas para adquirir ativos de energia, mas também para exportar serviços e desenvolver tecnologias nativas chinesas, como a transmissão UHV.

Em 2019, cerca da metade das atividades de Fusões e Aquisições (F&A) na América Latina e no Caribe foi no setor elétrico, de acordo com o Boletim Econômico China-América Latina do GDP Center. Os projetos de energia renovável receberam a maior parte dos fundos, e Brasil, Chile, Peru e México estavam entre os principais países beneficiados. Entre os principais negócios destacam-se a recente compra pela State Grid da distribuidora de energia chilena CGE e a venda da Zuma Energia, a maior empresa de energia renovável do México, para a State Power Investment Corp.

Os recentes investimentos chineses no Brasil apontam para algumas tendências futuras. Pela primeira vez, em 2019, os projetos de energia eólica e solar receberam tratamento preferencial de investidores chineses. Em uma ruptura com o passado, a maior parte desse investimento recente foi em projetos greenfield, demonstrando escolhas comerciais em linha com os incentivos da política brasileira, e uma vontade de explorar o dom natural do país.

Até 2029, o Brasil pretende ter um terço de sua capacidade adicional de geração derivada do vento. Já em 2019, a capacidade eólica instalada no Brasil atingiu 15,4 GW. No entanto, avaliações recentes prevêem que o potencial local de geração de energia eólica atingiria 880 GW. No local menos ensolarado do Brasil, é possível gerar mais energia solar do que no local mais ensolarado da Alemanha, um dos principais investidores em tecnologia solar. Nos próximos anos, é possível ver mais projetos chineses nessas fontes.

Dado o apetite da China para explorar o rico potencial de energia renovável do Brasil e os compromissos comerciais de longo prazo assumidos na última década, as empresas chinesas continuarão a ser atores decisivos na expansão do setor elétrico brasileiro durante as próximas décadas. Essa pode ser uma contribuição significativa para os planos do Brasil de expandir ainda mais o papel das energias renováveis em sua matriz energética, além de fomentar investimentos em tecnologia verde.

 

As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem as das instituições às quais o autor é afiliado.