Chile pode abandonar carros e ônibus a combustão até 2035?

Santiago lidera caminho para transição, com a maior frota de ônibus elétricos da América Latina

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Trabalhadores checam pontos de recarga para ônibus elétricos fabricados pela empresa chinesa BYD, em uma estação em Santiago, Chile. O país fez progressos na eletrificação do transporte público, mas deve trabalhar para promover veículos elétricos particulares para cumprir sua meta de 2035 (Imagem: Rodrigo Garrido / Alamy)

"Hoje é um dia histórico para o Chile: temos uma nova estratégia de mobilidade elétrica, que nos permitirá acelerar nossos objetivos e nos alinhar aos padrões internacionais”, afirmou Juan Carlos Jobet, ex-ministro de Energia e Mineração do Chile no lançamento da Estratégia Nacional de Eletromobilidade em outubro de 2021. Nos meses seguintes, uma consulta pública com representantes do meio acadêmico e da indústria ofereceu contribuições para a nova estratégia, que foi finalmente publicada no início de 2022.

A estratégia aposta no avanço gradual da eletrificação dos veículos. Assim, todas as vendas de veículos de leves a pesados — com até 560 quilowatts (KW) de potência — e de veículos de transporte público urbano deverão ser elétricos a partir de 2035. No caso de veículos interurbanos e com potência de até 19km — geralmente usados na construção civil e produção agrícola —, a data limite é 2045.

37%

É o quanto o setor de transportes já representou no consumo de energia do Chile

A adoção de VEs traz uma série de benefícios, mas uma das principais razões para a  estratégia é o compromisso do Chile de se tornar neutro em carbono até 2050 — meta com a qual o setor de transportes tem muito a contribuir, já que representou 37% do consumo de energia do país segundo dados do Ministério do Meio Ambiente publicados em 2020.

Quase tudo isso — pouco mais de 99% — é alimentado por derivados de petróleo. O setor é responsável por 25,5% das emissões de gases de efeito estufa do Chile. Ao buscar a transição para os VEs, o país sul-americano espera reduzir suas emissões em 35%.

O Chile não é o único com essa estratégia. A Noruega quer que 100% das vendas de novos carros sejam de zero emissões até 2025 — meta que provavelmente será cumprida — enquanto Dinamarca, Escócia e Cingapura pretendem fazer isso até 2030. Canadá, União Europeia e Reino Unido devem alcançar esse objetivo até 2035.

Percurso do VE no Chile

Para alcançar seu objetivo, o Chile deve aproveitar suas experiências — boas e ruins — com iniciativas parecidas em outras áreas verdes, disse Miguel Solís, diretor de automação e engenharia robótica da Universidade Andrés Bello. "Enquanto existem algumas experiências bem sucedidas, outras ficaram de lado, como foi o caso da Agenda Digital [para 2020] e a das cidades inteligentes", disse.

Solís diz ser vital focar nos obstáculos para a implementação da estratégia. Ele destacou a necessidade de se estabelecer e regular padrões na indústria de VE, incluindo regras sobre recarga e eficiência mínima dos veículos. Aspectos técnicos como a localização dos disjuntores e a ampliação da infraestrutura de recarga também demandam atenção.

Gabriel Boric speaks
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Mesmo que o número de pontos de recarga no Chile já tenha aumentado, se o ritmo da infraestrutura não acompanhar o aumento da frota, isso será uma barreira à adoção da tecnologia, alertou Javier Pereda, pesquisador de engenharia elétrica da Pontifícia Universidade Católica do Chile.

"Atualmente, uma viagem mais longa requer muito mais planejamento para o veículo não ficar sem energia", disse Pereda, "mas isso deve mudar". Embora essa questão seja um desafio nacional, continuou ele, o Chile tem uma oferta de energia renovável suficiente para migrar todo o seu transporte para a eletromobilidade.

Outra barreira de entrada, entretanto, é o alto preço dos veículos elétricos, algo que pode atrasar sua adoção pela população. Na opinião de Pereda, isso é de se esperar para um país em desenvolvimento como o Chile. "O Estado não vai subsidiá-los porque tem limites na carteira, e essa não é uma de suas prioridades", afirmou.

Mesmo assim, é provável que haja incentivos por parte do governo. Entre eles está uma redução temporária do custo da licença rodoviária anual para veículos elétricos, que é uma exigência legal para quem trafega pelas estradas do país. Isso permitiria igualar o imposto pago de VEs com os de veículos a combustão, que hoje custa 65% menos.

Espera-se uma revisão da lei de geração distribuída — aquela em que a energia é gerada pelos próprios consumidores — para passar a permitir que os VEs possam devolver energia à rede e que essa energia seja inclusive valorizada, o que significa que os veículos também seriam tratados como soluções para o armazenamento de energia, que hoje é um dos gargalos do setor.

Há ainda outras possibilidades de avanços no projeto de lei sobre a transição energética, que busca promover os VEs e o armazenamento de energia elétrica do país. Apresentado em dezembro, ele ainda tramita no Congresso.

Transporte público elétrico

Enquanto desafios persistem para a expansão dos VEs de uso pessoal, o caminho parece um pouco mais tranquilo para a eletrificação do transporte público.

Quando a estratégia dos VEs foi apresentada, a então ministra dos Transportes do Chile, Gloria Hutt, disse que "o desenvolvimento da eletromobilidade é fundamental para avançar rumo a cidades mais sustentáveis, em que o transporte público tem um papel fundamental".

Embora os ônibus elétricos sejam mais caros que os veículos convencionais, o retorno do investimento é muito mais rápido

Hutt acrescentou que cerca de mil novos ônibus elétricos tomarão as ruas de Santiago até 2035, elevando o número total para 1.700. Ela também se comprometeu a trazer ônibus elétricos para cidades fora de Santiago, como Antofagasta, Concepción e Puerto Montt.

Santiago continua sendo a cidade com a maior rede de ônibus elétricos do mundo fora da China. Sua frota inclui veículos das fabricantes chinesas King Long, BYD e Yutong. E o objetivo é continuar crescendo.

O transporte público é totalmente diferente do privado quando se trata de veículo com emissão zero, segundo Javier Pereda. "Embora sejam mais caros que os veículos convencionais, o retorno do investimento é muito mais rápido. Como eles percorrem cerca de 70 mil quilômetros por ano, os custos operacionais se tornam mais baixos e eficientes", explicou. A isso se soma seu menor custo de manutenção.

Julio Maturana, subsecretário de Energia do governo de Gabriel Boric, que tomou posse em março, explicou que algumas das iniciativas propostas pela administração anterior para a eletromobilidade serão retomadas, enquanto outras serão aprimoradas.

"Isso será feito com foco nos cidadãos, na inovação e no envolvimento do Estado para promover o desenvolvimento sustentável nos transportes, de modo a favorecer a descarbonização e o bem-estar dos cidadãos. Queremos focar nos governos regionais e municipais para avançar mais equitativamente", disse Maturana.