Erik Solheim: China deve ter normas mais rígidas para Iniciativa Cinturão e Rota

Ex-chefe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente diz que a China deve eliminar gradualmente o carvão da Iniciativa Cinturão e Rota

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Construção de um trecho da ferrovia China-Laos, um projeto da BRI para melhorar a conectividade da China com o sudeste asiático (imagem: Huang Zongwen/Alamy)

Erik Solheim, consultor sênior do World Resources Institute (WRI) e ex-chefe do PNUMA, passou boa parte de dezembro de 2020 na China, onde participou da cerimônia de abertura do Belt and Road Initiative Green Development Institute e visitou Zhejiang e Shenzhen para ver o ritmo do desenvolvimento com baixo teor de carbono a nível local.

Solheim diz que sua visita à China ocorreu em um momento especial: o presidente Xi Jinping estabeleceu em setembro uma meta de atingir a neutralidade de carbono em 2060. O presidente Joe Biden quer fazer dos Estados Unidos um líder global na ação climática. E a União Europeia está em estreita conversa com a China para alinhar seu ambicioso New Deal Verde com os esforços de recuperação econômica pós-pandêmica dos chineses. "Este é o momento mais favorável agora. Acredito que muito pode ser alcançado se China, Estados Unidos, Europa, África e outros países puderem trabalhar juntos", disse ele em uma entrevista ao China Dialogue em Beijing.

 

Erik Solheim acredita que a China pode deixar de usar carvão nos projetos da BRI
Erik Solheim, ex-chefe do PNUMA (imagem: Global Landscapes Forum, CC BY-NC-SA 2.0)

Durante seu mandato no PNUMA, a agência estabeleceu em conjunto uma coalizão internacional de organizações que buscam tornar a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) mais ambientalmente sustentável, em parceria com o Ministério de Ecologia e Meio Ambiente da China (MEE). A Coalizão Internacional de Desenvolvimento Verde para a Iniciativa Cinturão e Rota foi permeada de controvérsias na época. De todo modo, Solheim não deixou o tema de lado como consultor sênior do WRI e do governo central da China para o programa de desenvolvimento internacional mais emblemático do país.

Um dos principais resultados de sua visita foi a divulgação de uma proposta de sistema de classificação ambiental para investimentos chineses no exterior, cuja criação Solheim supervisionou como líder do projeto. Na entrevista ao China Dialogue, que foi levemente editada para maior clareza, Solheim defende o fim do financiamento do carvão e a aplicação de padrões mais rígidos para os projetos chineses da Iniciativa Cinturão e Rota.

China Dialogue: Por que o senhor argumenta que a Iniciativa Cinturão e Rota precisa ser mais ambientalmente sustentável?

Erik Solheim (ES): Porque esta é de longe a maior iniciativa de investimento de nossa era. Hoje em dia, há muito foco no investimento em carvão na BRI. Mas se você mudar o foco para eólico, solar e outros tipos de energia renovável, então a BRI tem um potencial enorme de contribuir para o meio ambiente no mundo.

A China é o maior produtor de energia verde, e tecnologias como ônibus elétricos, baterias e trens de alta velocidade. Muitas tecnologias chinesas podem ser difundidas para outros países da Iniciativa Cinturão e Rota, bem como as melhores práticas de proteção ambiental, como ocorre com o principal sistema fluvial de Zhejiang, e as medidas anti-desertificação na Mongólia Interior.

Além disso, a BRI não diz respeito apenas à experiência da China. Podemos compartilhar as experiências de outras nações, como as práticas verdes de Cingapura, com demais países da Iniciativa Cinturão e Rota.

CD: O que é exatamente uma BRI "verde"? Existem padrões específicos que poderíamos aplicar a ela?

ES: O Presidente Xi já disse inúmeras vezes que a Iniciativa Cinturão e Rota deve ser verde e limpa. A BRI deve fazer uso dos melhores padrões globais. Trabalhar em estreita colaboração com as nações da União Europeia em tais padrões é importante, dado o quão avançados estão suas práticas nas áreas de energia, infraestrutura, desenvolvimento urbano e cadeia de fornecimento verdes.

Mas em primeiro lugar, uma mudança do carvão para a energia renovável é fundamental. A China pode interromper o financiamento de projetos de matriz de carvão mineral e ganhar a confiança da comunidade internacional. Recentemente, o Japão e a Coreia do Sul se comprometeram a não investir no carvão internacionalmente. O presidente Jin Liqun, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), acaba de anunciar o mesmo. É um desenvolvimento empolgante. Estou muito certo de que dentro de pouco tempo, a China vai parar os investimentos em carvão no exterior.

A China tem aplicado padrões rigorosos aos investimentos em muitos setores domésticos. Ela deve fazer o mesmo para os investimentos no exterior.

Uma parada no financiamento do carvão deve ser vista como uma oportunidade positiva para investimentos em indústrias verdes. Se houver investimento maciço em veículos solares, elétricos ou em baterias, podemos não só criar um grande número de empregos na própria China, mas também empregos em outros países da Iniciativa Cinturão e Rota.

Em segundo lugar, a China está agora estabelecendo corredores de investimento, como o Corredor Econômico China-Paquistão e o Corredor China-Myanmar. É muito bom —  precisamos conectar o mundo —  mas também é fundamental que os investimentos chineses em infraestrutura sejam feitos levando em consideração a responsabilidade sobre a fauna e sobre a natureza.

Por último, eu gostaria de mencionar a cadeia de valor. Temos visto muita destruição de florestas tropicais, que muitas vezes está ligada à produção de óleo de palma, carne bovina, soja ou madeira. Como a China é um mercado grande, ela está no centro da mudança destas cadeias de valor. Devemos descobrir como torná-las verdes e responsáveis.

CD: A China deve parar de construir usinas de carvão no exterior agora mesmo?

ES: A China deveria abandonar gradualmente os investimentos em usinas de carvão  no exterior. Todos entendem que leva tempo para parar de investir nessa matriz, mas, se você ainda investe nela, você compromete o sistema energético de um país ao uso de carvão pelos próximos 20 anos ou mais.

Um dos objetivos do Green Belt and Road Institute, lançado em Beijing em 1º de dezembro, será fornecer ajuda e servir como uma plataforma para os investidores chineses. Ele foi criado para que os bancos e instituições financeiras financiem energias renováveis, e para demais empresas que tenham condição de fazer investimentos verdes.

CD: A China publicou inúmeras diretrizes e políticas para tornar a BRI mais sustentável ambientalmente, mas elas foram criticadas por não disporem de nenhum meio de fiscalização. Qual é o seu conselho para a China sobre esta questão?

ES: Não tenho dúvidas de que a China é capaz de resolver isso. Se a China conseguiu combater a pobreza com resultados tão notáveis, acredito que o país também pode tornar a BRI mais sustentável ambientalmente com a mesma determinação. E vimos que, depois que o presidente Xi disse que a China será neutra em carbono em 2060, diferentes indústrias começaram a se mover. Podemos ver uma enorme mudança.

CD: Como a China deveria vincular melhor sua meta de neutralidade de carbono em 2060 com a BRI?

ES: A China tem aplicado padrões rigorosos aos investimentos em muitos setores domésticos e deve fazer o mesmo para os investimentos no exterior. Por exemplo, se você olhar 10 anos atrás, aqui em Beijing, o ar estava poluído e absolutamente horrível. Mas agora a situação está muito melhor graças aos grandes esforços do governo chinês e das autoridades municipais da cidade. Os padrões rigorosos que foram estabelecidos para ar puro na China também devem ser duplicados para investimentos nos países da Iniciativa Cinturão e Rota.

CD: Como anfitriã da COP15, da biodiversidade, em Kunming no próximo ano, que medidas a China pode tomar para proteger melhor a biodiversidade nos projetos da Iniciativa Cinturão e Rota??

ES: A China está criando linhas vermelhas de proteção ecológica para proteger ambientes naturais vulneráveis que estão próximos aos centros populacionais —  não apenas áreas selvagens distantes nas montanhas. A China está estudando como podemos preservar a natureza mesmo em lugares com forte presença de atividades humanas. Ela estabeleceu o objetivo de incluir um quarto das terras da China sob a proteção de linhas vermelhas ecológicas. É uma meta doméstica muito ambiciosa. Nenhum outro país pode replicar totalmente esse modelo porque ele foi criado com características chinesas, mas os países da Iniciativa Cinturão e Rota ainda podem se inspirar e fazer esforços semelhantes no planejamento do uso do solo.

Esta entrevista foi publicada originalmente no China Dialogue.