5 razões para ser otimista sobre 2020

Do avanço do Acordo de Escazú a compromissos climáticos mais ambiciosos, há boas razões para não nos sentirmos totalmente pessimistas em relação ao ano que passou

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Biden 2020

A eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos em novembro de 2020 trouxe esperanças de que o país retornará a cooperar para arrefecer as mudanças climáticas (imagem: Alamy)

Seria um verdadeiro eufemismo dizer que 2020 tem sido um ano desafiador. A pandemia destruiu vidas e economias, e o mundo nunca mais será o mesmo. A Covid-19 descarrilou quase tudo — quase tudo.

Apesar disso, há razões genuínas para ser otimista em relação aos últimos 12 meses. Por exemplo, a China se comprometeu a atingir a neutralidade de carbono até 2060. E a mudança de administração na Casa Branca reavivou esperanças por mais cooperação internacional sobre o clima — além oferecer um possível respiro a países latino-americanos forçados a escolher entre Washington e Beijing. Além disso, a região apoiou fortemente o Acordo de Escazú para proteger a biodiversidade e os defensores do meio ambiente.

Aqui estão nossas razões para otimismo em um ano, de resto, perverso.

1. Escazú à beira de se tornar realidade

Com sua aprovação pelos congressos argentino e mexicano no mês passado, o Acordo de Escazú está agora a um passo de se tornar uma realidade.

Assim que um desses países ratificar o tratado regional, este acordo sem precedentes, que busca melhorar o acesso à informação pública, a participação cidadã e a justiça sobre questões ambientais na América Latina e no Caribe com a ONU, atingirá o número mágico de 11 países necessários para que entre em vigor.

Este foi um grande avanço após quase seis meses de paralisia devido à pandemia e às crises sociais e econômicas que a acompanharam. O fato de duas das cinco principais economias da região terem ratificado o acordo pode ajudar a influenciar outros países onde ele ainda está sendo discutido – Colômbia, Peru e Costa Rica – a se comprometerem com um acordo para proteger os defensores do meio ambiente na região mais perigosa do mundo.

2. O agronegócio assumiu importantes compromissos

O ano de 2020 viu a escala do desmatamento na parte brasileira da floresta amazônica bater um recorde de 12 anos, com 11.088 quilômetros quadrados destruídos. Entretanto, diante da crescente pressão de investidores e compradores, os gigantes do agronegócio no Brasil finalmente assumiram compromissos importantes para enfrentar o problema, afastando suas próprias atividades do fraco desempenho do país na área de proteção ambiental.

A gigante comercial chinesa Cofco International anunciou em julho planos para alcançar a rastreabilidade total de seus fornecedores diretos de soja no Brasil até 2023. Embora o plano tenha falhas, se concluído, seria uma contribuição significativa para conter a devastação do bioma Cerrado, o segundo maior do Brasil.

Depois de perder grandes investidores, a gigante do setor de frigoríficos JBS anunciou um plano ainda mais ousado, para rastrear todos os seus fornecedores indiretos até 2025, um esforço que poderia transformar a crescente indústria de carne bovina da Amazônia. O anúncio, feito em setembro, veio apenas alguns meses depois que sua maior concorrente, a Marfrig, lançou planos semelhantes.

Ainda resta uma boa dose de ceticismo por parte de ambientalistas em relação a expectativas de que as empresas realmente executem esses planos. Compromissos semelhantes foram anunciados e abandonados no passado. Mas os anúncios recentes pelo menos mostram que as multinacionais do agronegócio estão se sentindo pressionadas. Além disso, não há razão para acreditar que as preocupações com suas pegadas ambientais diminuirão depois que Joe Biden tomar posse como presidente dos Estados Unidos com a promessa de restabelecer os compromissos ambientais de seu país.

3. Lançamento de ônibus elétricos em toda a América Latina

O setor de transportes na América Latina é responsável por 35% do total das emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis. Isso é superior à média global de 23% e vem crescendo desde os anos 1970. Mas a mudança está chegando. Os países da América Latina estão caminhando para um transporte público mais limpo em suas cidades mais populosas.

Quase 2 mil ônibus elétricos circulam atualmente pela região e muitos deles entraram em operação em 2020. Com mais de 400, Santiago, capital do Chile, tem a maior frota elétrica da América Latina e a maior de todas as cidades fora da China. Cali, Bogotá e Medellín introduziram os primeiros ônibus elétricos na Colômbia, assim como Montevidéu no Uruguai.

Há ainda um longo caminho a percorrer, pois a frota atual representa 1% de todos os ônibus nas ruas da América Latina. Consciente disso, a parceria ZEBRA – uma colaboração entre o C40 Cities e o Conselho Internacional sobre Transporte Limpo (ICCT) – garantiu este ano compromissos de investidores e fabricantes para acelerar a implantação de ônibus elétricos.

4. Novas promessas climáticas antes da COP26

Este ano deveria ter sido um marco para o meio ambiente, com grandes esperanças sobre ações nas áreas de mudanças climáticas, oceanos, biodiversidade e pesca. E embora a Covid-19 tenha perturbado em grande parte os planos de todos e adiado grandes cúpulas como a COP26, houve algumas notícias positivas quando vários países apresentaram compromissos climáticos mais ambiciosos.

A Colômbia pretende reduzir suas emissões em 51% até 2030 por meio de políticas de transição energética, mobilidade limpa e redução do desmatamento. O anúncio representa uma melhoria em relação à sua meta anterior de 20%. O Peru se comprometeu a um corte de 40% das emissões, 10% mais ambicioso, enquanto a Argentina reduzirá as emissões em 26% mais do que sua meta inicial de 18%.

Também houve boas notícias fora da América Latina. A China, o maior emissor do mundo, comprometeu-se a neutralizar o carbono até 2060 e a reduzir a intensidade de carbono em 65% até 2030. A União Europeia concordou em reduzir as emissões em 55% até 2030, mais ambiciosa que sua meta anterior de 40%, enquanto o presidente-eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, gerou esperanças de novas ações climáticas

5. Uma mudança de tom na Casa Branca

A vitória enfática de Joe Biden nas eleições presidenciais americanas de novembro trouxe alívio a muitos quadrantes. Em casa, parecia marcar o fim de um período de divisão nacional, exacerbado por uma retórica inflamatória. Em outros lugares, gerou uma esperança renovada de cooperação dos Estados Unidos nos fóruns da ONU, inclusive na Organização Mundial da Saúde e nas negociações climáticas vacilantes da UNFCCC.

No entanto, em muitos lugares, inclusive nos países BRICS, os bons votos de Biden não foram imediatamente recebidos. E os especialistas preveem poucas mudanças substanciais capitaneadas pelo político de 78 anos de idade quando se trata da China. É provável que Biden mantenha várias posições da era Trump nas relações comerciais e de investimento com a China – e nas relações da China com o mundo – ao assumir o cargo em 20 de janeiro. Assim como a perspectiva de a guerra comercial seguir em curso, é pouco provável que Biden queira ser visto como o presidente que recuou nas ações para conter a influência da China na América Latina.

Dito isso, e como a professora de relações internacionais Barbara Stallings argumentou em uma recente entrevista com o Diálogo Chino, os Estados Unidos vão pelo menos "tirar seu joelho do pescoço da América Latina" quando se trata das escolhas da região sobre parceiros internacionais. Para que a América Latina possa reconstruir suas sociedades e economias de forma sustentável após a pandemia, ela deve cooperar no desenvolvimento com uma série de países – inclusive a China.

Depois de um ano tão cansativo, a possibilidade de se envolver com a China sem a perspectiva de uma reprimenda imediata de Washington, como era costume sob Trump, permitirá ao menos que os países latino-americanos tenham um breve suspiro de alívio.