Opinião: É preciso redirecionar até 19% do PIB latino-americano e caribenho para cumprir metas climáticas

Descarbonização traz benefícios, mas requer reforma institucional e deve ser realizada de forma justa, diz Banco Interamericano de Desenvolvimento

Compartilhar

ação climática financiamento climático América Latina Caribe Banco Interamericano de Desenvolvimento

Turbinas eólicas em Oaxaca, México. Investimento em energia limpa é uma das soluções para zerar as emissões líquidas, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (Imagem: Jon G. Fuller/VWPics / Alamy)

Argumentos a favor de uma ação climática não poderiam ser mais urgentes. As temperaturas globais já subiram 1,1°C e mais de 3 bilhões de pessoas estão altamente vulneráveis aos efeitos do aquecimento global, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Precisamos nos adaptar imediatamente aos impactos de um clima em mudança.

Também é necessário limitar o aquecimento o mais próximo possível de 1,5°C, principal objetivo do Acordo de Paris. As emissões globais devem atingir um pico muito em breve, se não imediatamente, cair mais de 40% até 2030 e atingir zero líquido por volta de 2050. Quanto mais adiarmos uma ação pelo clima, mais difícil será assegurar um futuro sustentável e habitável para todos.

Atualmente, diversos governos concentram esforços — e com razão — a preocupações mais imediatas, tais como a pandemia da Covid-19, recuperação econômica, guerra na Ucrânia, interrupções nas cadeias de valor globais, o aumento de preços de commodities e da inflação. Diante desse cenário, é realmente possível nos darmos ao luxo de focar nas metas das mudanças climáticas?

Um novo estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento concluiu que, na América Latina e no Caribe, alcançar as metas do Acordo de Paris exigiria de 7% a 19% do PIB — até US$ 1,3 trilhão — em gastos públicos e privados anualmente.

A ação climática não só seria muito mais barata do que os custos da inação, mas também traria benefícios substanciais. Além disso, uma ação pelo clima não é apenas sobre gastar mais. Trata-se, principalmente, de gastar de forma diferente.

Solar panel worker desert
Leia mais: Como a América Latina pode financiar sua transição energética

Os resultados de nosso estudo dão ideia do papel do financiamento global do clima e das reformas políticas internas que podem ajudar governos a financiar a ação climática. Países desenvolvidos prometeram US$ 100 bilhões por ano de financiamento climático aos países em desenvolvimento. Esse valor, no entanto, representa apenas uma fração do que é necessário.

A maior parte do esforço virá de repensar as instituições, o planejamento e as leis para redirecionar os fluxos financeiros públicos e privados existentes para as soluções climáticas.

Ação climática exige repensar como se investe

Há um consenso global de que existem soluções eficazes para alcançar emissões líquidas zero. Essas incluem investir em energias renováveis em vez de combustíveis fósseis e seguir uma dieta que requer menos espaço para produzir alimentos, ajudando a reduzir a pressão sobre os ecossistemas. Há também diversas soluções de adaptação, incluindo a construção de infraestrutura longe de zonas de inundação e a escolha de culturas mais resistentes ao calor e à seca.

15 milhões

de novos empregos poderiam ser criados na América Latina e Caribe até 2030 no processo de descabornização

Muitas dessas soluções trazem benefícios econômicos. O retorno sobre a resiliência pode chegar a 400%. A descarbonização também pode impulsionar economias e aumentar o PIB em 1% até 2030 — isso graças a aportes nos setores de energia, construção, transporte, saúde e ganhos de produtividade, assim como aumento dos serviços ecossistêmicos. Essas soluções podem criar 15 milhões de novos empregos até o fim década.

Para adotar essas soluções, devemos considerar as metas climáticas nas etapas de projeto e planejamento. Reduzir as emissões não significa construir uma usina de gás natural e depois gastar mais em um filtro. Significa priorizar a energia solar ou eólica desde o início.

Da mesma forma, construir uma nova estrada mais distante da costa pode ser muito mais barato do que gastar mais para construir sistemas de proteção contra a elevação do nível do mar. Em países em desenvolvimento construindo a infraestrutura básica para as próximas décadas, a ação climática e o desenvolvimento são duas faces da mesma moeda.

Pessoas e instituições são verdadeiro tesouro

A adaptação às mudanças climáticas também está ligada a investimentos sociais. A pandemia mostrou como os impactos socioeconômicos de eventos externos dependem muito da existência de programas de proteção social para ajudar as famílias afetadas, especialmente as mais pobres. O mesmo se aplica aos choques climáticos, como ciclones ou secas.

Gastos na área social também são cruciais para garantir uma transição energética justa. A transição para tecnologias mais verdes afetará negativamente certos grupos, como trabalhadores de usinas de carvão. Proporcionar seguro desemprego digno, oportunidades de educação e treinamento fará uma grande diferença para garantir que ninguém seja deixado para trás. Novamente, desenvolvimento e investimentos no clima se complementam.

Como acelerar o financiamento climático

Onde os governos podem encontrar de 7% a 19% do PIB para uma ação pelo clima? Nosso relatório explora as reformas fiscais verdes e a remoção dos subsídios aos combustíveis fósseis. Essas ações, em conjunto, podem liberar até 200 bilhões de dólares por ano.

Governos também precisarão gerenciar os riscos fiscais associados às metas climáticas. Países exportadores de petróleo e gás podem perder até US$ 3 trilhões até 2035, pois a transição global de energia diminui os royalties. Impostos especiais sobre a gasolina e o diesel, utilizados em países como a Costa Rica, também precisarão ser alterados à medida que aumentar o número de veículos elétricos circulando nas ruas. Uma estratégia fiscal de longo prazo pode ajudar a identificar formas de substituir essas receitas.

Ação climática e desenvolvimento são duas faces da mesma moeda

Reformas regulatórias e institucionais são a peça essencial do quebra-cabeça. Por exemplo o ciclismo: para aqueles que trabalham perto do local onde moram, andar de bicicleta pode ser mais barato do que o deslocamento de carro. Nas cidades, ciclovias podem ser muito mais baratas do que as pistas para veículos. Andar de bicicleta também vem com benefícios para a saúde e reduz o congestionamento no trânsito.

Contudo, leis e instituições podem servir como um desincentivo à prática. Autoridades locais podem ter incentivos para construir estradas, mas não para construir ciclovias ou pensar em conectividade. Leis podem exigir que o setor privado providencie vagas de estacionamento em edifícios de escritórios, mas não o mesmo para as bicicletas. Nesse contexto, é essencial mudar o planejamento da cidade e as normas de construção de escritórios e residências. Pode ser uma maneira simples de redirecionar os fluxos financeiros existentes para soluções climáticas.

Ação climática deve redirecionar investimentos

Diversas mudanças como essas são necessárias. Governos podem apresentar estratégias climáticas abrangentes que delineiem as transformações necessárias em cada setor e elaborar roteiros para remover as barreiras que impedem o financiamento público e privado das ações climáticas. Diferentes ministérios podem desempenhar um importante papel. Um Ministério da Economia, por exemplo, pode ajudar a fortalecer a coordenação interministerial e a ponte com bancos multilaterais de desenvolvimento, que podem fornecer assistência técnica e financiar parte da ação climática.

Nada disso ocorrerá em um vácuo. Todos os países devem enfrentar a crise climática enquanto tratam de outras prioridades. A pandemia e a guerra na Ucrânia, no entanto, mostram que os governos podem agir de forma decisiva em emergências. A emergência climática não deve ser exceção.

 

Essa coluna foi publicada orginalmente no site do Banco Interamericano de Desenvolvimento e foi republicada com permissão.