Opinião: Transição energética emperra na Argentina

Governo e petrolífera YPF celebram centenário de estatal, mas Argentina não tem nada a comemorar até que as energias renováveis e a pobreza energética sejam tema central, escreve Ilan Zugman, da 350.org

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Trabalhadora inspeciona uma bomba de combustível comemorativo no evento do 100º aniversário da companhia petrolífera estatal YPF em Buenos Aires, no dia 3 de junho. (Imagem: Agustin Marcarian / Alamy)

Um clima festivo tomou conta da Argentina na primeira semana de junho graças a dois eventos. O primeiro foi a vitória por 3 a 0 da seleção argentina sobre a Itália no Finalíssima, torneio com os campeões da Eurocopa e Copa América. Já o segundo foi uma espécie de fraude: redes sociais e canais de televisão estavam repletos de anúncios da gigante estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) por seu centésimo aniversário, no dia 3 de junho.

Representantes do governo e da própria empresa tentaram celebrar a data com o mesmo orgulho e nacionalismo da vitória argentina em campo. Mas a mensagem não foi bem recebida e gerou diversas críticas por alguns setores da sociedade.

A razão é simples: não há mais como disfarçar que a YPF e a política energética da Argentina seguem um rumo desastroso, sem cumprir plenamente com sua função de atender às necessidades da população. O país precisa urgentemente de uma transição para as energias renováveis, com justiça social e sensatez econômica.

Queimando dinheiro e oportunidades

Apesar de um momentâneo impulso do petróleo e gás após a invasão russa da Ucrânia, é urgente nos livrarmos dos combustíveis fósseis, principal motor da crise climática, que já está causando mortes, migrações forçadas e a redução da qualidade de vida de bilhões de pessoas, especialmente as mais vulneráveis. A redução de emissões de gases de efeito estufa se tornou uma questão de sobrevivência para a nossa espécie.

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Nesse contexto, onde qualquer combustível fóssil é uma ameaça existencial, o espaço para transições suaves ao longo de décadas e substituições ineficazes, como a troca de petróleo por gás, se esgotaram. A médio e longo prazos, esses setores diminuirão rapidamente — e, para o bem de todos, eles devem diminuir.

O jogo mudou. Centenas de fundos, universidades e governos em todo o planeta estão retirando investimentos ou se comprometendo a não investir em combustíveis fósseis. O valor do desinvestimento, como esse movimento é chamado, ultrapassa os US$ 40 trilhões e inclui jogadores que dificilmente poderiam ser chamados de "sonhadores". A agenda de muitos administradores dessas instituições é o lucro, e eles perceberam que, mesmo do ponto de vista estritamente financeiro, apostar em energia suja é mau negócio.

Assim, depositar montanhas de dinheiro público em petróleo, gás e carvão, como fizeram o governo argentino e a YPF, é completamente insano. De acordo com relatórios do próprio governo, entre 2017 e 2021, os subsídios federais para a produção de gás fóssil atingirão pelo menos 106 bilhões de pesos (R$ 4,4 bilhões). Deve-se lembrar que essa soma considerável vem de um governo extremamente endividado.

Ao mesmo tempo, as estimativas mais conservadoras indicam que cerca de 1,5 milhão de famílias argentinas ainda vivem na pobreza energética — ou seja, comprometem 10% ou mais de sua renda com o pagamento de energia, de acordo com dados do agente regulador nacional de gás Enargas, coletados em 2020.

Em outras palavras, a Argentina enfrenta dificuldades econômicas, mas queima dezenas de bilhões de pesos sustentando um modelo energético ineficiente, que exclui uma parcela significativa da população e agrava o grande problema de nossa era: a crise climática.

Fracking em Vaca Muerta

O quadro se agrava se considerarmos os danos socioambientais da extração de petróleo e gás em Vaca Muerta, reserva de onde provém a maior parte dos combustíveis fósseis da Argentina. A extração na área exige o fracking, uma técnica de perfuração de formações rochosas que é proibida em cerca de 30 países, incluindo Reino Unido, França e Espanha.

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Vários estudos mostram a relação do fracking com a contaminação das fontes de água por produtos tóxicos e a ocorrência de terremotos, entre outros problemas. De fato, milhares de pessoas nas províncias de Neuquén, Rio Negro e Mendoza já estão sofrendo danos à saúde e graves perdas econômicas devido à exploração de petróleo e gás em Vaca Muerta, uma área onde a YPF é uma das empresas mais ativas no uso do fracking.

Mesmo ciente disso tudo, o governo argentino e a YPF mantêm sua posição. Em abril, o presidente Alberto Fernández inaugurou com pompa as obras de um gasoduto entre as províncias de Neuquén e Buenos Aires, financiado com recursos públicos. Ele aproveitou a oportunidade para destacar o papel central da YPF nessa expansão e assinalou que, em Vaca Muerta, "há gás para 200 anos".

É impossível não se perguntar se o presidente — ou seus antecessores, de várias vertentes políticas — tem alguma ideia de como será o mundo daqui a 200 anos se continuarmos queimando petróleo e gás no ritmo atual. Também devemos nos perguntar por que o governo e a YPF agem como se a vida nas comunidades ao redor de Vaca Muerta tivesse menos valor do que em outros lugares.

Saindo do atoleiro

Para encontrar um caminho mais promissor, a Argentina precisa promover a transição energética — uma tarefa perfeitamente viável. Antes de mais nada, cabe ao governo tomar a corajosa decisão de admitir que Vaca Muerta e o modelo baseado nos combustíveis fósseis falharam.

Isto significa enfrentar o lobby das empresas petrolíferas estrangeiras e os poucos argentinos que ganham muito com a extração de petróleo e gás. Quanto mais cedo o governo fizer isso, maior será o benefício coletivo. Além disso, o custo político de admitir o fracasso pode ser mitigado se o governo for capaz de mostrar à população os ganhos da adoção de um modelo econômico baseado em energias limpas, que vão desde a geração massiva de empregos até a obtenção de um ambiente saudável para as famílias.

É fundamental alocar os recursos públicos que alimentam os combustíveis fósseis na transição energética

Um segundo passo é transformar o papel da YPF. Um debate nacional deve começar a identificar como os valiosos talentos da empresa podem servir à expansão das energias renováveis e ao desenvolvimento de outros setores econômicos na Argentina, em áreas como pesquisa, tecnologia da informação e infraestrutura. O objetivo seria terminar em poucos anos a relação tóxica do país com os combustíveis fósseis e abrir um capítulo de prosperidade, redirecionando os recursos da empresa para setores social e ambientalmente sustentáveis.

Também é fundamental alocar os recursos públicos que alimentam os combustíveis fósseis na transição energética. Um estudo recente da Universidade Nacional do Centro da Província de Buenos Aires mostrou que redirecionar os subsídios do petróleo e gás para as energias renováveis seria o suficiente para a Argentina atingir a neutralidade de carbono até 2050.

Além disso, relatórios de organizações como a Farn mostraram que a mudança para uma matriz energética com fontes renováveis contribuiria para a redução da pobreza energética e do custo da energia a longo prazo.

Finalmente, uma quarta iniciativa para a transformação energética envolveria o trabalho com organizações da sociedade civil e do setor privado para conter os fluxos financeiros privados que incentivam os combustíveis fósseis. Vários grandes bancos e fundos de investimento europeus e americanos lucram com a destruição ambiental, financiando empresas de combustíveis fósseis e seus projetos de extração ou distribuição de petróleo e gás na Argentina. Para demonstrar um compromisso real com a sustentabilidade, essas instituições também devem direcionar seus recursos para setores limpos e socialmente benéficos.

Uma mudança de mentalidade e atitude em relação à questão energética será essencial para que a Argentina possa desbloquear seu potencial de desenvolvimento. Uma celebração mais autêntica do que aquela patrocinada pela YPF em seu centésimo aniversário poderia acontecer se a empresa e o governo tomassem medidas abrangentes e rápidas para a inclusão energética e o respeito pelo planeta.