OPINIÃO: Bolsonaro e China, um relacionamento conturbado

Em artigo de opinião, cientista político critica postura da família de presidente em relação ao maior parceiro comercial do Brasil

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China's president Xi Jinping and Brazil's President Jair Bolsonaro at the 11th BRICS Summit in Brasilia

Xi Jinping e Jair Bolsonaro em novembro (Imagem: Isac Nóbrega/PR)

Jair Bolsonaro é o primeiro presidente brasileiro eleito com uma retórica áspera sobre a China, muitas vezes criticando os investimentos chineses no Brasil como uma ameaça à segurança nacional e à soberania econômica. Apesar disso, em seu primeiro ano no cargo, ele estabeleceu um relacionamento pragmático com Beijing, incluindo reuniões com Xi Jinping e uma viagem bem-sucedida à China. 

O risco dessa abordagem é uma política externa que prioriza a  busca por um alinhamento com os Estados Unidos, em um momento em que Donald Trump estava travando uma guerra comercial contra a China. Essas tensões latentes explodiram nas controvérsias em torno da pandemia de coronavírus, com Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, envolvido em uma briga no Twitter com o embaixador chinês no Brasil.

Troca de acusações

Eduardo é o deputado mais votado da história do Brasil e o orador de política externa de sua família. Em 2019, seu pai tentou, sem sucesso, indicá-lo como embaixador em Washington. Eduardo admira tanto Trump que já até foi fotografado com o boné de sua campanha, "Make America Great Again". Seu discurso anti-China é uma cópia das declarações de Trump culpando o país pela pandemia e falando de um "vírus chinês". Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, é uma tentativa de desviar a responsabilidade pelas falhas no tratamento do surto.

É duvidoso que este tipo de troca de acusação possa funcionar em qualquer lugar quando a pandemia está matando centenas por dia. Mas é uma estratégia ainda pior no Brasil, como Eduardo Bolsonaro aprendeu rapidamente. O Brasil não é uma superpotência e depende muito do mercado chinês, destino de cerca de 30% de suas exportações. Setores-chave da economia brasileira — como agronegócio, mineração e petróleo — têm a China como seu principal parceiro comercial e, cada vez mais, como a principal investidora.

Xi Jinping se recusou a receber um telefonema do presidente Bolsonaro, inicialmente

Os tweets de Eduardo, culpando a China pelo vírus, provocaram uma forte reação do embaixador chinês no Brasil, que criticou o deputado publicamente na mesma plataforma de mídia social. Yang Wangming chegou a Brasília no primeiro mês de governo de Bolsonaro. Em seis meses, ele já falava português bem o bastante para fazer discursos no idioma. Ele é muito ativo na diplomacia pública e é o primeiro diplomata chinês no Brasil a desenvolver um grande número de seguidores no Twitter — principalmente devido às críticas ao filho de Bolsonaro e seus posts sobre como a China está combatendo o novo coronavírus .

O establishment político brasileiro reagiu rapidamente e tomou o lado do embaixador. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, líderes empresariais e grandes meios de comunicação expressaram sua rejeição às declarações de Eduardo Bolsonaro, destacando a loucura de brigar com o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto o país está à beira de um retorno à depressão econômica, por causa da pandemia. Até o vice-presidente, general Hamilton Mourão, disse que Eduardo não falava pelo governo e só estava recebendo atenção por ser filho do presidente.

Bolsonaro e China: Uma história de desconfiança

Não foi a primeira vez que o clã Bolsonaro teve uma disputa diplomática com o embaixador chinês. Em 2018, em sua pré-campanha à presidência, Jair Bolsonaro foi para Taiwan , onde fez um discurso chamando a ilha de "país" — embora o Brasil não a reconhecesse como um estado soberano. Na época, os diplomatas da China no Brasil enviaram uma carta a todos os membros do Congresso criticando a viagem e declarando a importância da “política da China Única” que Brasília segue desde 1974, considerando que apenas Beijing é o representante do povo chinês.

1974

O ano em que a China e o Brasil estabeleceram relações diplomáticas formais

Apesar das relações pragmáticas entre Brasil e China no primeiro ano do governo Bolsonaro, as suspeitas de Beijing sobre o presidente nunca desapareceram totalmente. O principal motivo é o receio chinês de que a aproximação do presidente com Trump possa levar a problemas para suas empresas, como a possibilidade de um veto brasileiro contra a Huawei participar da licitação do padrão de Internet 5G ou a State Grid ser proibida de comprar a Eletrobras no Brasil em uma eventual privatização da empresa.

Beijing apoiou seu embaixador na disputa com Eduardo Bolsonaro e continua exigindo desculpas do congressista. A imprensa brasileira informou que Xi Jinping se recusou a receber um telefonema do presidente Bolsonaro, inicialmente. Mas, na terça-feira, os dois presidentes conversaram — por mais que ainda não se saiba se o pedido de desculpas desejado foi feito.

Esses são sinais de que a China sabe o que está em jogo para o Brasil na próxima crise e que pressionará mais o país no complexo relacionamento triangular Brasil-China-Estados Unidos. É claro que o coronavírus está desafiando a reeleição de Trump e criando uma tempestade política para Bolsonaro que traz incertezas sobre se ele vai terminar seu mandato.

Além disso, os ataques à China por causa do surto de coronavírus tocam algumas feridas profundas na história do país. Durante o período que os chineses chamam de “o século das humilhações” (1839-1949), as potências ocidentais mantiveram muitas visões negativas sobre os hábitos de saúde e higiene da China, considerando frequentemente seu povo doente e fraco.

Algumas dessas velhas cicatrizes ainda estão presentes no debate sobre a atual pandemia, que também está se tornando parte de uma tendência maior das disputas sino-americanas pela liderança global. Beijing está tentando desviar a culpa do surto e apresentar sua resposta como modelo para outros países, apoiando-os com cooperação internacional, médicos e suprimentos médicos. Com a ameaça de escassez grave em seu sistema de saúde, seria sensato da parte do Brasil deixar a porta se abrir para esse tipo de ajuda.

Este artigo foi publicado originalmente no Brazilian Report