Projeto para levar internet a áreas remotas avança na Amazônia peruana

Iniciativa entre Peru e China quer erguer uma rede de fibra óptica para conectar um milhão de pessoas, mas impactos ambientais precisam ser observados

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Representantes do consórcio feito pela empresa Yachay Telecomunicaciones, do Peru, e a Yangtze Optical Fibre and Cable (YOFC), da China, inspecionam uma instalação de rede de fibra óptica (Imagem: Governo Regional de San Martín)

Uma nova rede de fibra óptica promete levar acesso à internet a quase um milhão de pessoas na Amazônia peruana e nos Andes da América Latina.

O amplo projeto do governo peruano e do consórcio Rede YOFC — da empresa Yachay Telecomunicaciones, do Peru, e a Yangtze Optical Fibre and Cable (YOFC), da China — se estenderá por cerca de 7.500 km e deve chegar a 1.700 localidades. No departamento de San Martín, no coração da Amazônia peruana, as obras estão mais avançadas, embora o trabalho em toda a rede tenha sido atrasado por uma série de fatores, incluindo a Covid-19.

A Rede YOFC assinou quatro contratos de financiamento do projeto, lançado em 2019, que totalizam US$ 411 milhões (R$ 2,2 bilhões), como parte do ProInversión, órgão governamental que desenvolve obras de infraestrutura e busca atrair investimento privado para sua execução.

7.500 km

É a extensão da rede de fibra óptica que está sendo construída pelo projeto do governo peruano em parceria com o consórcio Rede YOFC

"A missão deste projeto é melhorar a conectividade da internet em áreas remotas que não têm cobertura", disse Xu Gao, gerente de logística da YOFC, ao Diálogo Chino. "Ganhamos a licitação para estabelecer uma rede básica e levar acesso à internet a esses lugares. Escolas, delegacias, hospitais e centros de saúde serão beneficiados".

Tais benefícios são vistos como fundamentais pelas autoridades locais. Ambientalistas, por sua vez, reconhecem os benefícios do projeto, mas alertam que as obras e seus impactos ambientais associados devem ser monitorados ao longo da construção.

Atrasos e compliance na rede de fibra óptica

Pelo contrato inicial, a Rede YOFC deveria concluir o projeto em três anos, prevista para 2022. Mas a pandemia provocou atrasos e, assim, as obras devem se estender “provavelmente até o início de 2023", de acordo com Xu Gao. Assim que a rede tenha sido inspecionada e autorizada pelo governo peruano, a empresa YOFC — que tem presença em mais de 70 países — fornecerá o serviço de internet por dez anos.

Xu Gao explica ao Diálogo Chino que a primeira parte do projeto inclui a construção dos "nós" da rede — pequenos contêineres que armazenam equipamentos da rede. Cerca de 1.500 lotes de terra de 40 x 50 metros quadrados serão adquiridos para se construir os 1.700 “nós” necessários para todo o projeto. De acordo com Xu Gao, quase metade da rede de fibra óptica foi concluída no prazo de um ano.

Denisse Linares, da ONG peruana Derecho, Ambiente y Recursos Naturales, diz que é necessário monitorar de perto os possíveis impactos ambientais das obras. "Certamente, o projeto traz benefícios muito necessários, como resolver o problema de conectividade, ainda mais em tempos em que tudo é virtual", afirma.

Entretanto, acrescenta Linares, "é necessário abrir estradas [na floresta] para se dar lugar a esta infraestrutura. Esses espaços têm que ser bem monitorados e avaliados, já que uma das causas do desmatamento é a abertura de estradas sem o planejamento adequado".

Para a especialista, as obras também podem estimular as economias ilegais ou mesmo atividades legais com impactos adversos sobre a floresta.

A China tem quase 100% de distribuição de fibra óptica, mas há 50 anos não havia nada. Esperamos ajudar os peruanos a ter uma oportunidade semelhante

Xu Gao afirma que a Rede YOFC está alinhada aos compromissos estipulados no início do projeto: "solicitamos todas as autorizações necessárias antes de seguir em frente. Nós coordenamos com os municípios, o governo regional e o Ministério da Cultura [do Peru]. Se não cumprirmos com as obrigações, enfrentaremos uma pesada multa”.

Ele acrescentou: "monitoramos de perto nossos empreiteiros e também os informamos sobre as restrições ao gerenciamento de resíduos, para que os resíduos não afetem o meio ambiente".

Além disso, Xu Gao afirma que a Rede YOFC está atenta aos bens imateriais do país. “Sabemos muito bem que o Peru cuida muito de suas reservas naturais e bens culturais, e isso também é muito importante para nós", completou.

Segundo o representante chinês, o projeto deve beneficiar 215 instituições educacionais, 17 delegacias de polícia e 139 centros de saúde, além de fornecer internet gratuita nas principais praças das cidades. E faz um paralelo com a sua terra natal: "A China tem quase 100% de distribuição de fibra óptica, mas há 50 anos não havia nada. Nós nos desenvolvemos muito nos últimos anos. Esperamos ajudar os peruanos a ter uma oportunidade semelhante", disse.

Amazônia conectada

O departamento de San Martín será o primeiro a ser beneficiado pelo projeto da fibra óptica. Estima-se que serão investidos cerca de US$ 70 milhões (R$ 370 milhões) para levar conectividade a essa parte da Amazônia peruana, impactando cerca de 200 mil pessoas em 220 comunidades rurais, de acordo com informações fornecidas pelo governo regional. As obras de infraestrutura estão em estágio avançado, e espera-se que os 1.280 km de fibra óptica planejados para San Martín possam ser entregues no início de 2023.

"Sabemos que este é um projeto importante e que somos os beneficiários diretos. Por isso queremos que o projeto seja realizado o mais rápido possível", diz José Abner Vásquez Vásquez, diretor de Transportes e Comunicações do governo de San Martín. "Sempre apoiamos o consórcio quando ele encontra algum problema e acompanhamos as obras nos lugares mais remotos para explicar às pessoas os benefícios que elas verão em breve".

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Funcionários de agências e empresas envolvidas na construção da rede de fibra óptica visitam um "nó" no departamento de San Martin, a região em que as obras estão mais avançadas (Imagem: Governo Regional de San Martín)

Além de melhorar a conexão dos cidadãos aos serviços públicos essenciais, Vásquez acrescenta que o acesso a uma comunicação mais rápida é uma oportunidade para combater o tráfico ilegal de madeira e de animais — dois problemas crescentes na região —, já que as denúncias podem ser feitas mais rapidamente.

Entretanto, o projeto não é uma unanimidade. Vásquez menciona que algumas comunidades se opõem à ideia, em grande parte influenciadas por notícias falsas geradas em meio à pandemia. "Elas pensavam que as antenas iriam afetar sua saúde, então inicialmente se opuseram à instalação", explicou.

Por essa razão, autoridades locais tiveram que reunir líderes e organizar palestras e campanhas de conscientização na região. Das 220 localidades por onde passa o projeto, 212 receberam essas atividades para sanar as dúvidas sobre o projeto. A esse esforço, acrescentam-se as barreiras de quarentenas, o difícil acesso a algumas áreas e às fortes chuvas, que contribuíram para atrasar as obras.

Até o momento, autoridades regionais estão satisfeitas com o progresso do consórcio e com o respeito ao meio ambiente. 

Apesar do progresso e da promessa de acesso à internet, Vásquez destacou que "são necessários mais projetos similares", já que as 220 localidades que serão integradas à rede representam menos de 10% dos 2.510 centros populacionais da região.

A Rede YOFC não é a única iniciativa que busca conectar os peruanos. A Conecta Selva, outro projeto impulsionado pela Pronatel, fornece acesso à internet via satélite. Em novembro de 2021, o governo informou que conseguiu fornecer o serviço a 348 escolas e 46 estabelecimentos de saúde nos departamentos de Loreto, Madre de Dios e Ucayali, beneficiando cem mil pessoas.

Como parte do projeto liderado pelo YOFC, o governo regional de San Martín conduz, desde agosto de 2019, “treinamentos” para usar a internet nas cidades envolvidas. O projeto também inclui a doação de cinco computadores para cada escola, dois para cada centro de saúde e um para cada delegacia de polícia. O custo do serviço wifi é assumido pelo governo regional, e aos usuários será oferecido um serviço a um preço mais barato do que as opções atualmente disponíveis.

"A ideia é ajudar o máximo possível para a realização do projeto", diz Vásquez, que espera que a rede de internet aproxime a Amazônia do mundo inteiro.