Maior volume de commodities por preço menor

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Os países latino-americanos estão enviando cada vez mais riquezas naturais para os chineses e por um preço menor do que estavam acostumados a receber. O volume de exportações das quatro principais matérias-primas enviadas para China, considerando os três maiores países exportadores de cada item, cresceu 14,63% em 2015 em relação ao ano anterior. Esse dado desmistifica por completo o rumor de que os chineses pisaram no freio no que diz respeito ao apetite pelas commodities da América Latina.

Apesar de o país asiático ter recebido mais embarques de soja, minério de ferro, cobre e barris de petróleo no ano passado, a China pagou, em média, 68,74% menos por quilograma de commodity importada. Os dados foram compilados pela reportagem do Diálogo Chino, junto a um site de estatísticas, supervisionado pelo Centro de Informações Alfandegárias da China.

“Como resultado da queda dos preços, os países da América Latina estão recebendo menos por suas exportações. A China tem anunciado, ao menos nos últimos cinco anos, que vai modificar sua demanda por importações de commodities, mas a América Latina não está entendendo isso e países do Mercosul, principalmente, ainda estão focando em grandes quantidades de produtos de exportação de baixo valor agregado, como a soja, e aumentando enormemente a oferta e o resultado é claro: os preços caem continuamente”, disse ao Diálogo Chino o professor da Universidade Nacional Autônoma do México Enrique Dussel Peters, coordenador da Rede Acadêmica da América Latina e Caribe sobre a China (RED-ALC China) e autor do estudo “O Crescente Papel da China na América Latina: pode ser um ganha-ganha?”.

As estatísticas corroboram os dados chineses de importação de commodities em nível global. Apesar do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês ter, desde 2010, saído dos dois dígitos e entrado no ano passado em um “novo normal”, que aponta crescimento mais moderados na faixa de 6% a 7% ao ano, os embarques totais de minério de ferro para o gigante asiático subiram 2,2% em 2015. De acordo com Mei Xinyu, pesquisador do Ministério de Comércio da China, as compras de petróleo cresceram 8,7% de janeiro a novembro do ano passado e a importação de alimentos disparou 27,3% no mesmo período, segundo dados da Bloomberg.

Contudo, a redução no preço das commodities vem causando grandes turbulências econômicas em potências da região latino-americana, como é o caso do Brasil, grande exportador de petróleo, ferro e soja, que atravessa uma forte recessão. E ainda da Venezuela e Colômbia, fornecedores de petróleo e da Argentina, provedora de soja, além de impactos consideráveis em outros países dependentes do apetite chinês, como os exportadores de cobre Peru e Chile.

O Índice de Preços de Commodities Primárias do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o nível de preços dos produtos voltou a registrar patamares semelhantes àqueles quando eclodiu a crise financeira internacional, em 2008. “O preço das commodities não vai voltar nem perto dos picos vistos antes”, disse Alejandro Werner, diretor do departamento do hemisfério ocidental do FMI, durante palestra realizada em janeiro, organizada pela Americas Society/Council of the Americas.

Modelo esgotado

Apesar de uma demanda crescente pelos principais produtos primários exportados pela região, a desaceleração do crescimento chinês verificada nos últimos dois anos, aliada a uma sobre oferta destas matérias-primas no mercado internacional, tem ajudado a provocar um desequilíbrio entre a oferta e a demanda e ocasionado, consequentemente, uma vertiginosa queda nos preços das commodities.

O modelo de crescimento econômico da maior parte dos países da América Latina, baseado na exportação de commodities para a China – tão bem sucedido, na última década, na geração de receitas, tanto quanto controverso do ponto de vista ambiental – dá sinais claros de esgotamento e de necessidade de ser estrategicamente modificado.

“A emergência de uma China mais orientada ao capitalismo, permitiu a muitos países florescer economicamente nas décadas recentes, contudo de uma forma insustentável ambientalmente”, afirma Ronn Pineo, pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs.

Mais prejuízo ao meio ambiente

Novos dados, ainda não divulgados, e obtidos em primeira mão pela reportagem do Diálogo Chino, provenientes de Glen Peters, pesquisador do Centro de Pesquisa Internacional do Clima e Meio-ambiente da Universidade de Oslo, mostram que de 2008 a 2013, no auge do super ciclo das commodities, quando os preços estavam nas alturas, as exportações da América Latina e do Caribe para China geraram 2kg de CO2 equivalentes em emissões de gases de efeito estufa para cada dólar americano de receita.

As exportações da região para outros destinos geraram 1,7kg de CO2, enquanto que a atividade econômica em geral emitiu 0,6kg de CO2. Os números estão acima daqueles verificados em 2004 e mostram que a China vem aumentando o impacto ambiental na América Latina e Caribe nos últimos anos.

No que diz respeito à utilização e contaminação da água associada às exportações para China, os números também são desanimadores. De acordo com o Water Footprint Network, no mesmo período de cinco anos, 2,6 metros cúbicos de água por dólar americano estão relacionados aos produtos enviados ao país asiático, enquanto que as exportações latino-americanas a outros países registraram um impacto de 0,9 metros cúbicos de água, e a atividade econômica em geral de apenas 0,2 metro cúbico.

“As exportações latino-americanas para China representam 15% a mais de emissão de gases e duas vezes mais uso e contaminação de água que as outras exportações. Seguindo o mesmo raciocínio, e considerando a atividade econômica em geral, as exportações latino-americanas para China representam mais de três vezes a emissão de gases e 10 vezes mais o uso da água”, alerta a pesquisadora da Universidade de Boston Rebeca Ray em entrevista ao Diálogo Chino.

Um estudo publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico ou Econômico (OCDE), que tem como missão apontar uma nova direção para a parceria entre a América Latina e a China, mostra o grande problema desta relação econômica. Nos últimos 15 anos, “commodities perfizeram 73% das exportações da região latino-americana para China, enquanto que os produtos industrializados responderam por 6%”.

“A relação entre a América Latina, o Caribe e a China deve ir além do comércio e focar em investimento estrangeiro direto, clusters de manufatura para permitir a especialização tecnológica de valor agregado, além de avanços em educação e turismo”, diz Dussel Peters.

Para Pineo, que também conversou com a reportagem do Diálogo Chino, os chineses já perceberam as implicações negativas do modelo baseado na compra de matérias-primas da América do Sul e vêm conduzindo reuniões com o alto escalão dos governo regionais para criar novas oportunidades com o subcontinente, que incluem parcerias industriais e de investimentos em infraestrutura. “Eles estão, por exemplo, explorando possibilidades de se juntar à Bolívia na mineração de lítio e também na produção local de baterias de lítio”, afirmou o especialista.

Peters, da RED-ALC China, acredita que a principal tarefa seja o fortalecimento das instituições de diálogo que já existem, como o Fórum China-CELAC, além da criação de novos organismos nacionais e regionais que possam impulsionar o planejamento e a visão estratégia em direção ao um novo tipo de parceria entre o gigante asiático e a região latino-americana. “É impressionante quão poucas e frágeis instituições com a China nós temos hoje. Sem essas entidades qualquer sugestão adicional será fraca e terá grande probabilidade de fracassar”, afirma o professor, em alusão à potenciais alternativas que poderiam ser implementadas para que haja uma mudança na relação comercial entre os players.

O pesquisador Álvaro Mendez, da London School of Economics, também faz coro à proposta de Peters. Em um amplo estudo sobre a crise nos países emergentes, o especialista aponta como sugestões para uma menor dependência à exportação de commodities o investimento em pesquisa e desenvolvimento e a formulação de planos de longo prazo geoestratégicos para a região, encabeçados por organismos que possam fazer os países dialogarem de maneira mais eficiente.